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domingo, 16 de junho de 2019
Artigo Antonio Fais

Mão de Vaca

13 Abr 2019 - 07h33Por (*) Antonio Fais
Mão de Vaca - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Era um pouco antes das seis de uma tarde fria e úmida da chuva que havia caído. O céu escuro aumentava minha pressa de estar em casa, tomar um banho e uma sopa quentes. O trânsito lento e a demora de cada motorista em pôr o carro em movimento a cada sinal, aumentavam minha fome, pressa e frio.

Em um dos semáforos, uma mulher bateu no vidro e pediu-me uma esmola. Eu não tinha uma moeda sequer à mão. Teria que procurar. Quando disse que não tinha, ela me olhou com aquele olhar em que saem faquinhas nas histórias em quadrinhos e disse: mão de vaca! Não falou alto nem baixo, mas a voz era firme e profunda. Seu olhar ficou fixo em mim até eu partir. Meu coração acelerava a cada nova parada, mas não havia mais pedintes. Segui com os olhos da mulher cravados em mim. Cheguei sem fome, sem frio! Deitei-me no sofá e ouvia “mão de vaca” - as faquinhas iam fundo.

Fiquei horas deitado e pensando: mão de vaca. Eu tinha por princípio nunca dar esmolas. Mão de vaca! Estimula a vadiagem. Mão de vaca! Dormi bem. Não sonhei com isso. No dia seguinte, fui ao cestinho em que ponho moedas e peguei várias de pequeno valor. Enchi a mão. E pus na porta do carro.

À primeira pessoa que me pediu esmola, dei uma moeda sem ver o valor. Observei o alívio e a alegria que batiam como uma brisa em tarde quente. E ouvi um sincero: Deus lhe pague!

(*) O autor é escritor e filósofo

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