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quinta, 02 de abril de 2020
Resplandecente Alma

Interdependência: a consciência necessária em tempos de pandemia

26 Mar 2020 - 16h47Por Anaísa Mazari
Interdependência: a consciência necessária em tempos de pandemia -

Tempos de crise, seja a crise pessoal ou humanitária, constituem-se ocasiões muito pertinentes para a atenção a aspectos da vida que se perdem nos cotidianos tão perpassados pela diversidade de estímulos que nos fazem agir frenética e automaticamente, sem reflexões mais profundas e se perdendo de elementos essenciais para uma boa “estadia” no sistema Vida.  Tornam-se convocações para novasformas de viver, para construção e atualização de significados, para moldar novas posturas. Perceber (finalmente!), que não somos seres isolados e que atitudes individuais sempre terão consequências coletivas menores ou maiores, nos leva a reconhecer a importância de comportamentos pessoais e observar que temos todos,papéis e funções com inevitáveis repercussões nas engrenagens existenciais.

A proporção mundial do alastramento do Coronavírus pede a consciência para a interdependência, característica intrínseca às relações humanas sobretudo na amplitudede sua dimensão social e comunitária. Como seres sociais e gregários, não existe nenhuma forma de vida humana totalmente apartada do contexto sociohistórico vigente. A interação é exercida por todos nós e claramente os impactos dessa interação terão ressonânciasem todos, ainda que haja algumas diferenças de processamento e interpretação das experiências. Interdepender, simplesmente acontece na naturalidade das trocas sociais. Mas quanto mais estamos conscientes disso, maior a probabilidade de nos posicionarmos como sujeitos sociais protagonistas da realidade e do cotidiano, traçando trajetórias muito mais potentes.

Quando a consciência sobre a interdependência se estabelece, deixamos de observar atitudes de solidariedade social como caridade ou ação apenas de “seres de luz”, compreendendo o processo solidário como algo que determinará também o nosso próprio bem-estar e, no contexto do enfrentamento de uma pandemia, terá também o significado de autoproteção, concomitante à proteção do bem coletivo. Renunciar a vontades individuais deixa de ser, através de uma análise simplista, “altruísmo” e “sacrifício em prol do outro”, para significar cuidados essenciais para com a comunidade na qual estamos contidos e necessariamente, torna-se cuidado com a nossa própria saúde. Sentir empatia,nos iguala enquanto humanidade e deixa de ser “qualidade” apenas de alguns seres humanos mais sensíveis, tornando o ato de se colocar no lugar do outro um propulsor para avaliações do contexto mais adequadas, focadas na realidade - sem pânico, mas também sem negação -  que nortearão as prioridades em cada momento da crise. Apesar sim da pandemia e suas consequências atingirem cada um de uma forma que pode ser específica, considerando o lugar social de cada ser humano e suas respectivas formas de sentir e agir, conscientizarmo-nos de que somos interdependentes nos permite transitar do individual para o coletivo, abrindo um vasto campo para a construção de estratégias de enfrentamento da crise mais abrangentes, visando a reciprocidade e o bem comum, e o mais importante, sabendo que os resultados de comportamentos mais empáticos, adaptativos e criativos como resposta à crise nos beneficiará enquanto humanidade. Desde os organismos biológicos (com funcionamento orgânico também interdependente), até sistemas familiares, até a comunidade, chegando à interdependência internacional, uma pandemia descortina as conexões muitas vezes ignoradas em tempos de “zona de conforto”. Individualidades e coletividades se interpenetram, influenciam-se e se atravessam, determinando destinos. Que saiamos de toda essa crise mais resilientes e mais conscientes da interdependência que sempre permeou o relacionamento social, mas que vinha estando em posição equivocadamente coadjuvante em nossos imaginários... E por quê, por tanto tempo, a perdemos de vista? Tema para próximas reflexões...

        

 

 

 

Anaísa Mazari, é graduada em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. CRP 06/100271, especialista em  Saúde da Família e Comunidade através do Programa de Residência Multiprofissional da UFSCAr,   Terapeuta e Consteladora Sistêmica através do Instituto Brasileiro de Consciência Sistêmica - IBRACS Ribeirão Preto. Atua como psicóloga clínica e Consteladora.

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