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segunda, 25 de outubro de 2021
Artigo Antonio Fais

Duas Promessas Quebradas

26 Abr 2019 - 09h12Por (*) Antonio Fais
Duas Promessas Quebradas - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

ROGAI POR NÓS!

Nunca fui de promessas, embora tenha procurado cumprir aquelas feitas, em geral na infância ou adolescência, quando cremos que tudo gira em torno de nós.

Duas, porém, feitas em tempo recente, não as pude manter.

Peço, leitor, que, do alto de sua sabedoria, julgue os casos e, caso ache justo e, se de alguma crença for, interceda por mim junto às esferas necessárias.

PRIMEIRA PROMESSA

Há cinco anos, minhas taxas de triglicérides se elevaram acima do permitido – muito acima! Meu cardiologista, diante de minha recusa por remédios, sugeriu que eu cortasse todo o trigo (todo!). Pensei naquele pãozinho quente de manhã com manteiga, na lasanha de domingo... E propus cortar todo (todo!) álcool. Mais que isso, prometi a ele e a mim mesmo. A tarefa foi fácil e funcionou: as taxas voltaram ao normal e não mais subiram. Nunca mais ingeri uma gota de bebida alcoólica.

SEU ALFEO

A primeira vez que vi seu Alfeo foi quando ele completava 65 anos. Já era um velhinho simpático que cuidada da refrigeração de um cliente meu. Por acaso (e tudo na vida é acaso), íamos todas as quintas àquela empresa. De papo em papo, de café em café uma bela amizade foi se formando. Listasse aqui suas histórias e sabedoria, teria que transformar este conto em um romance, mas como não temos esse tempo, cada leitor que conclua do pouco que eu contar o que quiser.

Aos pouco soube que era rico e trabalhava por prazer. 

Na juventude morara em Santos e ganhara muito dinheiro com ar-condicionado e refrigeração.

Jovem, com dinheiro, solteiro e bom dançarino... “Ainda bem que casei cedo, senão eu me acabaria naquela vida...”, confessou-me certa vez. Casou-se no dia de seu aniversário de 22 anos. 

DE OURO

Conheci D. Maria, os filhos, noras e netos na festa de Bodas de Ouro, quando ele também comemorava 72 anos.

Era uma família alegre, onde ele era respeitado e todos o imitavam.

Como meus pais se separaram quando eu ainda era criança e eu tinha me casado há pouco (as minhas eram de Algodão e não chegariam ao Ônix), um pensamento não saía de minha cabeça: “Qual o segredo para um casamento durar 50 anos?”.

DE BRILHANTE

Com o passar dos anos e os rumos que as vidas tomam, nossos contatos foram se tornando esporádicos. Mas em agosto recebi um convite para ir jantar em sua casa em razão das Bodas de Brilhante e seus 97 anos.

À mesa, além de nós, estavam seus filhos, ambos viúvos, dois netos e D. Maria que tinha feito uma comida deliciosa.

Acompanhavam duas tentadoras garrafas de Don Tommaso Chianti, mas, como vocês imaginam, fiel à promessa, brindei com suco de uvas.

Os reluzentes talheres de prata combinavam com o aparelho de jantar antigo, as taças de cristal, as toalhas e guardanapos de linho. E um candelabro de prata com velas. Jantar a luz de velas.

Melhores ainda eram as histórias e os risos soltos durante o jantar.

Durante o café, externei minha pergunta calada nas Bodas de Ouro: “Nunca me imaginei em uma comemoração de 75 anos de casamento. Vocês têm que contar esta fórmula. Qual o segredo?”.

Depois de um silêncio que tinha ar de cumplicidade, D. Maria falou:

“O segredo, meu filho, é paciência – muita paciência”.

Ela olhou com carinho a ele e continuou:

“Esse homem sempre foi muito mulherengo. Não sossegava o facho. Meu pai dizia que ele não servia pra mim... Mas ele me mandava flores, alguns poemas, passava em casa de carro para ir dançar... Minhas amigas eram apaixonadas por ele... Até que não resisti mais...”.

Aí ela mudou para um tom severo:

“Mas foi muito difícil. Mesmo depois de casado, ele dizia que estava trabalhando, chegava tarde, às vezes perfumando... Nem te conto”.                                                                      

Olhei para seu Alfeo. Ele mantinha um enigmático sorriso de “depois lhe explico”.

Concordei com um leve movimento de cabeça que traduzia mais de trinta anos de uma amizade sincera.

E ela ainda acrescentou:

“E durante a guerra, quando os negócios não iam bem, ainda teve o tempo que dei aulas de piano para pôr comida em casa...”.

Ele sorriu e pediu para ela tocar Carinhoso ao piano. Ela fez charme, mas logo acudiu ao pedido (o caderno onde originalmente escrevi essas linhas, conserva ainda algumas lágrimas).

A SEGUNDA PROMESSA

Levantamo-nos para nos despedir, mas seu Alfeo fez um gesto para eu não ir embora.

Os filhos e netos despediram-se, D. Maria foi deitar-se e, a sós, ele me pegou pela mão e conduziu-me ao escritório.

Acomodados em duas poltronas separadas por uma mesinha redonda. Sobre a mesa que havia duas taças grandes de cristal, duas garrafas d’água com gás e dois copos. Ele começou a falar:

“Vou lhe contar o segredo dos relacionamentos duradouros, mas você tem que me prometer nunca contar a ninguém o que será dito aqui”.

Sem nem pensar, concordei: Prometo!

ROMANÉE

Com algum esforço ele se levantou, pegou-me pela mão e levou-me a uma estante com livros antigos. Mexeu em um dos livros e uma porta se abriu revelando uma escada estreita antiga e pouco iluminada. Com uma mão apoiada em um corrimão e a outra segurando a minha, descemos até uma surpreendente adega. De lá, sua mão certeira, sacou uma garrafa de vinho empoeirada.

Aos subirmos, ele passou um pano e entregou-me um saca-rolhas e a garrafa. Só então vi que se tratava de um Romanée Conti safra 1959! (Ano em que nasci! Acasos!)

Por um instante eu me senti um perfeito idiota ao me lembrar vagamente de minha promessa de 5 anos.

ANTES A ÁGUA

 “A água com gás tira os sabores. Os bons vinhos purificam a alma para momentos importantes. Ganhei este vinho de um tio que veio da Áustria em 1965, por ocasião das Bodas de Prata. Fui guardando para abrir em uma ocasião especial, mas sempre adiava. A próxima data especial será daqui três anos. Mas não creio que chegue até lá”. (Ele estava certo, pois, não chegou).

Tomamos a água e servi as taças. Por mais de meia hora ficamos quietos. Nada justificaria falar naquele momento. Descrever aqueles minutos de silêncio enquanto bebericávamos pequenos goles do vinho, seria ir além do limite conhecido da linguagem humana e voltar com palavras. Talvez Machado de Assis pudesse fazê-lo, eu não.

A SEGUNDA TAÇA

“A segunda taça nunca será como a primeira...”.

E enquanto saboreávamos a segunda taça, ele começou a contar:

“Eu era jovem e morava em Santos. A vida me sorria. As noites eram alegres. Eu gostava de beber e dançar. As mulheres gostavam de mim e eu gostava delas”.

Mais um gole e ele continuou:

“Instalar geladeira e ar-condicionado no final da década de 30 me dava acesso aos principais bares, às casas dançantes e às famílias abastadas. Eu ganhava um bom dinheiro. Comprei carro, apartamento...”

Mais uma respirada, mais um gole:

Um dia fui à casa de um rico comerciante, pai de Maria. Ela tinha 17 anos. Era linda. Tocava piano quando entrei. A música, que eu ainda não conhecia, me convidava a dançar. Era Carinhoso. Só muito depois ouvi a letra. Enquanto eu executava o serviço, ouvia ela tocar, voltava e pedia para tocar novamente” – ele fez uma longa pausa pensativo. Eu não disse uma palavra neste tempo todo.

“Nesta noite não tive vontade de ir dançar. Só queria dançar com ela. Descobri que era uma das moças mais cobiçadas da cidade. Parei de ir aos bailes, comecei a guardar dinheiro e estudar; e ler e ler muito. Eu sabia que ela me era inacessível. Um livro, no entanto, me deu esperanças: Do Amor, de Stendhal.  

Durante um ano, apesar de vê-la sair das aulas de piano todos os dias, nunca mais nos falamos. Até que um dia, abordei-a à saída do conservatório. Ela se lembrava de mim! Fomos tomar um sorvete e ficamos conversando sobre música e literatura. Ela, por acaso!, veio me falar de um livro de Stendhal: O Vermelho e O Negro. Por acaso, eu sabia muito da vida do autor.

Desse dia em diante, passamos a nos ver todas as tardes. Um dia eu a convidei para dançar, mas ele me disse que o pai não deixaria sair. Saiu escondida e dançamos a noite toda. Fazia um ano que eu não dançava. Ao deixá-la em casa, perto das duas da madrugada, roubei-lhe o primeiro beijo, que é algo como a primeira taça”, disse levantando a taça em minha direção.

“Vale lhe contar que antes fiquei amigo de muitas de suas amigas. Seria aceito pela maioria delas, mas sempre me comportei como um cavalheiro distante, pois só ela me interessava”.

A TERCEIRA TAÇA

“No final do ano, comprei uma boa casa, mobilhei e fiz o pedido. Ela, contrariando seu pai, aceitou. A mãe ajudou a convencê-lo. E nos casamos.

Vi, porém, que era uma moça sofisticada. E que meu pouco estudo e maneiras menos refinadas não seriam bastantes para mantê-la apaixonada. E por mais que me esforçasse, não poderia atingir seu patamar. Lembrei-me então do livro de Stendhal...”

“O Senhor não fez isso, fez?”, disse pasmado!

“Fiz! Nada mantém mais o interesse que o ciúme. Saía para trabalhar e voltava tarde, para que ela me aguardasse. Ela ficava brava, mais sabia que eu era apaixonado por ela. 

Cheguei a comprar um perfume de mulher para deixar na empresa e passava antes de voltar para casa...”, disse ele rindo da traquinagem.

“Cheguei até inventar algumas dificuldades financeiras, para que ela desse aulas particulares de piano e acreditasse que estava ajudando no orçamento familiar”.

Ele fez uma longa pausa para rir. “E pagava para algumas famílias mais pobres ter aulas com ela...”, ele se divertia contando.

Perguntei: “Quer dizer que...?”.

“Isso. Nunca tive outra mulher ou interesse na vida que não fosse ela.”

“E assim, meu jovem, mantive o fogo dela aceso. Ora pelo ciúmes, ora ela me ajudando, mas sempre demonstrando a imensa paixão que sentia... Ficamos velhos”.

MAIS UMA GARRAFA

Novamente ele se levantou, desceu à adega e trouxe outra garrafa de Romanée Conti, safra 2003, pôs em minhas mãos e disse: “Guarde para tomar em algum momento que lhe seja muito especial”.

Dois meses depois deixou a vida! Guardo ainda suas últimas palavras ditas à porta: Tudo na vida é acaso, a diferença é o que você faz!

JUÍZO

Julgue-me, pois, caro leitor, por quebrar as promessas.

(*) O autor é Escritor e Filósofo

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