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segunda, 11 de novembro de 2019
Memória São-carlense

Dona Jurandyra Fehr e a União Cívica Feminina

01 Mar 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Dona Jurandyra Fehr e a União Cívica Feminina - Crédito: Arquivos FPMSC e Câmara Municipal Crédito: Arquivos FPMSC e Câmara Municipal

O compulsar de exemplares de jornais e álbuns de fotografias de eventos oficiais da cidade entre 1965 e 2012 não deixa dúvidas: nesse período, São Carlos teve como uma de suas personalidades mais notórias dona Jurandyra Paschoal Fehr, a presidente da União Cívica Feminina. Quase meio século de participação na vida social da cidade teve o seu testemunho do que aconteceu na política e nos meios econômicos do município. E não foi pouca coisa.

Casada com o médico Emílio Fehr (ex-vereador que presidiu a Câmara Municipal por onze gestões) e mãe de dois filhos, Jurandyra ficaria à sombra do marido se não tivesse a ideia de criar uma instituição de caráter benemerente, que moldou a seu estilo, congregando mulheres da sociedade para realçar valores que então pareciam abstratos, como a cidadania e o civismo.

O que seria isso na prática as atividades de Jurandyra trataram de explicar logo no começo da história da entidade, criada em 1965. Empossada num dia festivo, 4 de novembro, no salão nobre do Fórum de São Carlos, a primeira diretoria da União Cívica Feminina com Jurandyra na presidência, contou com as participações de Esther Pereira Lopes (Vice Presidente), Lãines Paulillo (1ª.Secretária), Iraides de Oliveira Leite (2ª.Secretária), Juracy Valentie de Oliveira (1ª.Tesoureira) e Erna Fehr Spalini (2ª.Tesoureira). O Conselho Diretor era composto por Jurandyra Fehr, Terezinha Massei, Esther Pereira Lopes, Lãines Paulillo, Iraides de Oliveira Leite, Juracy Valentie de Oliveira, Erna Fehr Spalini, Maria de Lourdes Jordão, Jacy Carneiro Butcher, Sebastiana Tostes Coimbra, Baby Maffei, Ely Di Piero Pereira Lopes, Lucia Helena Werneck Porto, Maria do Carmo Werneck, Alice Carneiro, Irma Schiavone, Angelina Porto, Maria Isolina Camargo Fehr, Matilde Negrão, Sonia Fehr Pereira Lopes, Sextilha Pelicano Ribeiro, Maria Pacheco, Nair Ferreira Santini, Maria Terezinha Ribeiro Rangel e Ignes Penalva Reali.

Já em 1966, a Lei Municipal 5361, editada no governo do prefeito Antonio Massei, declarou a instituição como de utilidade pública. O diploma reconhecia a atuação de uma das primeiras organizações do gênero no país. Instituição que no auge de sua existência chegou a reunir cerca de 80 sócias contribuintes, que colaboravam para manter campanhas sociais e ações de solidariedade relacionadas à educação e defesa da cidadania.

Nos anos 1990, para valorizar a ação de suas integrantes, a entidade criou os títulos de Mãe do Ano, Cívica e Mulher do Ano, que passaram a ser entregues anualmente em solenidade na Câmara Municipal na antevéspera do Dia das Mães. O evento foi oficializado pela Lei Municipal No.11. 258, de 13 de dezembro de 1996.

Definindo-se como “uma mulher que trabalha pelo amor à pátria”, foi com essa visão que dona Jurandyra se projetou como um símbolo da alta sociedade local durante décadas, despachando diariamente na UCF.

Quem conviveu com ela mais de perto e conhecia os seus hábitos, dava testemunho de ações de solidariedade que eram muitas vezes feitas longe dos flashes – ainda que, nos eventos oficiais, as câmeras sempre a encontravam com figurino e visual impecáveis.

Quando passei a escrever em jornais da cidade, a partir do início dos anos 1980, a própria dona Jurandyra parecia ser uma instituição em si. Ela nunca revelava a idade (nascera em 1912), nem mesmo quando anualmente as colunas de jornais noticiavam seu aniversário no dia 15 de janeiro.

Certa vez, eu próprio redigi um texto sobre a data e, ao ler a nota, um grande amigo de dona Jurandyra, o então diretor da Câmara Municipal Francisco Xavier Amaral Filho, Xavierzinho, me chamou a atenção para a impropriedade do uso da expressão “veneranda”, palavra que eu achava bonita, mas que na opinião dele faria referência a alguém já de muita idade. Deu tempo de evitar a publicação, para meu alívio.

Numa ocasião em que ocorreria a homenagem à Mãe do Ano, falei com Jurandyra e comentei que minha mãe Apparecida, sim, que teve 13 filhos, 11 deles vivos na época, mereceria um título de “Mãe do Ano”. A conversa foi rápida, ela me explicou o motivo da solenidade e ao final pediu o telefone de casa. Prepararia a surpresa que tive quando minha mãe me contou no fim da tarde que recebera uma ligação de Jurandyra que a chamou pelo nome e, esbanjando “savoir faire”, fizera praticamente um discurso em sua homenagem.

Minha mãe teve tempo de mencionar que dona Bárbara Braga Rosa, membro da União Cívica Feminina, era prima de meu pai. Eu me lembro de vê-la em fotos publicadas nos jornais locais nos anos 1970 noticiando as reuniões das cívicas. Dona Bárbara figurava ao lado de dona Jurandyra, de Leonor Ferraz, Dalva Morganti, Berta Lavoie, Sonia Fehr, Maria Izolina, Leonor Procopio, Valentina Colaneri, Geni Viana e outras senhoras.

As diretorias da União Cívica costumavam contar com as mais assíduas colaboradoras como Yvonne Ribeiro Garcia, braço direito de Jurandyra em muitas jornadas e o grupo que liderou a entidade entre 2003 e 2005, composto pela 1a.Vice Presidente Maria José Sabino Maffei, 2a. Vice Presidente Miriam Mani Zambel, 3a.Vice Presidente Ondina de Campos Petroni, 1a. Secretária Carminda Nogueira de Castro Ferreira, 2a. Secretária Lourdes Gibertoni Ramponi, 1a. Tesoureira Ivone Ribeiro Cattani e 2a.Tesoureira Haidée Terruggi.

Nascida em São Paulo, Jurandyra Paschoal Fehr foi educada no Colégio Des Oiseaux, um dos mais tradicionais colégios para mulheres da capital paulista, fundado por cônegas belgas da Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho em 1907. Ali as moças iam para receber uma educação formal, aprender francês, latim, ter aulas de canto, bordado, boas maneiras e serem educadas na arte de receber bem.

Sua relação com São Carlos ? conforme contou à revista Kappa Magazine em 2012 ? começou quando o pai, Vicente Paschoal, comprou uma fazenda no município. Por serem oito irmãos, a mãe Ana Rita dividia com as filhas mais velhas as tarefas da casa. E foi graças a estes cuidados que Jurandyra, a caçula, conheceu o marido, Dr. Emílio Fehr, que na época cursava medicina no Rio de Janeiro. “Eu passava férias na fazenda aqui em São Carlos e acompanhei minha irmã a um baile em Araraquara e lá conheci o Emílio, um homem muito lindo e inteligente”, contou à revista.  Seis meses depois já estavam casados.

O casal teve dois filhos, o primeiro Paulo Emílio e, dez anos mais tarde, Sônia Maria. Eles lhes deram seis netos e quatro bisnetos.  “Deus me abençoou com um casal, mas sofri muito nos partos e por isso resolvi não ter outros filhos”, ela explicou.

Dr. Emílio Fehr tornou-se político influente na cidade, exercendo mandatos de vereador entre 1948 e 1983, quando se tornou recordista em número de eleições para presidente da Câmara. Com justiça, a sala da presidência da Casa leva o seu nome. Filho do industrial Germano Fehr e de dona Olga Held Fehr, nascido em dia 22 de julho de 1905, quando ainda recém-formado, foi médico-chefe do Centro de Saúde. Teve também atuação na indústria e comércio da cidade, como diretor da Fiação e Tecelagem Germano Fehr e da Fehr Comercial S.A agencia de veículos.

Como líder político, Emílio Fehr tinha uma postura conciliadora, característica que contribuiu para sua posição de protagonista de momentos históricos que definiram as bases do desenvolvimento da cidade e seu perfil como polo industrial, científico e tecnológico.  O nome de Dr. Emílio Fehr, dado à Sala da Presidência da Câmara Municipal, foi também atribuído ao Centro Empresarial de Alta Tecnologia de São Carlos, homenagens que denotam a grande contribuição dada por ele ao desenvolvimento de São Carlos.

O apoio de Dr. Emílio às tarefas de Dona Jurandyra a partir da formação da União Cívica Feminina foi fundamental.  Ele conhecia a fibra da esposa, que em 1932, aos 20 anos de idade, atuava no apoio às tropas paulistas na Revolução Constitucionalista. À revista Kappa, ela encerrou a entrevista, por sinal, declamando estrofes do poema de Guilherme de Almeida em homenagem à bandeira paulista: “Voltas ao nosso reduto com sete tarjas de luto, seis faixas brancas de paz e teu penacho vermelho: e São Paulo dobra o joelho ao beijo que tu lhe dás!”

Em 30 de junho de 1977, o município de São Carlos lhe concedeu o título de “Cidadã Honorária” e, tradicionalmente, os jornais destacavam a presença de Dona Jurandyra nos eventos do calendário oficial da cidade.

Em 1981, as Bodas de Ouro de Jurandyra e Emilio em 21 de dezembro, foram celebradas com uma elegante festa no Buffet França na Avenida Angélica em São Paulo, onde compareceu o ex-deputado federal Ernesto Pereira Lopes. Naquele mesmo mês, Dr. Emilio foi homenageado no Maksoud Plaza na Capital, onde recebeu o Troféu Padre Anchieta como Destaque Industrial de 1981.

Jurandyra revelou aspectos de sua personalidade ao responder a um questionário da seção Perfil, publicada no Espaço Cultural da Coluna do Adu, editada pelo Professor Aduar Dibo, ainda nos anos 1980.

Apontou a Itália como o país onde gostaria de morar, lembrou a poeta Cybelli Wanderley, disse preferir a cor azul e revelou apreço pela leitura do livro “Amor no Tempo da Cólera”, de Gabriel Garcia Marques. A música predileta era “Polonaise”, de Chopin, o hobby jogar cartas com amigas e os programas de TV eram os noticiários jornalísticos. Declarou que champanhe era sua bebida favorita e na música os cantores Roberto Carlos (popular) e Luciano Pavarotti (clássico). O doce que mais gostava era bombom de licor e as atrizes, Katherine Hepburn (cinema) e Beatriz Segal (TV).

Revelava que jamais colocaria no cardápio batatas e alho. Dizia que o professor que marcou sua vida foi Marques da Cruz, de São Paulo.  O jornal “O Estado de S.Paulo” era seu periódico predileto. A figura feminina que admirava era Margareth Tatcher e à pergunta sobre qual seria a razão de ser de sua vida, respondeu: “Minha família (carinho e amparo), netos (orgulho e amor), bisnetos Marina e Beatriz (encanto, alegria e renascimento)”.

Falecida em São Carlos no dia 17 de abril de 2012 aos 100 anos, Jurandyra revelaria ser um daqueles raros casos de pessoas que verdadeiramente deixam uma lacuna no meio social. Olhe-se para os acontecimentos, as cerimônias, os eventos aqui e ali e um assento parece estar vago: aquele que era ocupado por Jurandyra Paschoal Fehr. Ela não teve similar na história da cidade que escolheu para viver.

De certa forma, porém, pareceu estar presente na solenidade realizada no início deste mês na sede da União Cívica Feminina, na Avenida Comendador Alfredo Maffei, construída com seus esforços e que a partir do último dia 2 de fevereiro foi cedida à Associação dos Surdos de São Carlos.

Em discurso na ocasião, sua filha Sonia Fehr Pereira Lopes falou do misto de alegria e saudade em estar ali e viver aquele instante.  “Sentimentos e valores nobres se encontram neste lugar: Solidariedade e amor ao próximo. Fraternidade e altruísmo para praticar o bem”, disse ela.

Reinaugurada, a sede que depois da morte de dona Jurandyra não foi mais ocupada, passaria a ter o caráter simbólico de dar continuidade ao trabalho da extinta União Cívica Feminina – que ao desaparecer demonstrou que sua existência era personificada na figura de sua presidente.

Jurandyra Fehr de fato se dedicava a “trabalhar pela pátria”. Punha grandeza em tudo o que fazia. Tinha a dimensão histórica do papel que lhe cabia desempenhar.  Alguém poderá dizer: mas era uma mulher da alta sociedade! Sim, mas como sua filha assinalou, tendo acompanhado de perto cada gesto dela, “era impossível, verdadeiramente impossível, não se contagiar com sua determinação e seu idealismo”.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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