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sexta, 22 de janeiro de 2021
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DIA A DIA NO DIVÂ: Fases do desenvolvimento infantil

02 Out 2017 - 03h40Por (*) Bianca Gianlorenço
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

A maternidade é certamente a tarefa mais difícil de todas, mas ela não pode se transformar em um peso. Inúmeros pais se mostram inseguros em relação a isso. Não sabem se estão fazendo certo, se o comportamento é adequado para aquela fase do desenvolvimento, enfim, muitas questões os preocupam.

Quando uma criança necessita da ajuda de uma psicoterapia? O que deve ser levado em consideração como sinal de que algo requer maior atenção dos profissionais de saúde, educação e da família? O que deve ser tratado como distúrbio do desenvolvimento?

Sempre há algo a ser feito pela infância, e é nisso que devemos estar atento: no cuidado com a infância e adolescência, pois aí está o adulto do futuro.

De uns tempos para cá tenho percebido um crescente número de livros e artigos sobre como educar e cuidar dos filhos. É um festival de "pode e não pode", alguns amparados em pesquisas, outros em opiniões derivadas de observações, alguns sérios e outros não, e sinto que esse tanto de informação acaba confundindo a cabeça de pais e mães.

Não existe uma receita que sirva para todas as famílias, para cada uma e para cada situação, o sintoma terá um significado próprio e único. O sintoma diz o que não pode ser dito, o que não pode ser revelado, o que talvez não foi elaborado pela família. Cabe a nós profissionais da saúde e educação, ouvir, ver, compreender e auxiliar no desenvolvimento saudável.

Todas as crianças passam por crises em seu desenvolvimento, que podem ser equiparadas a neuroses. Essas neuroses, ou distúrbios neuróticos da criança e os transtornos do desenvolvimento infantil são muito comuns, podendo passar despercebidos ou não serem diagnosticados. Crianças podem ser rotuladas de 'arteiras, sem limites' quando, na verdade, são irritadas e hiperativas, ou no seu oposto serem consideradas como 'boazinhas e muito quietinhas', quando podem estar deprimidas, com dificuldades na interação social ou muito inibidas.

Muitos sintomas de transtornos do desenvolvimento podem ser transitórios, sendo reações a alguma condição interna ou externa do stress. A criança pode apresentar dificuldade em superar alguma etapa ou fase do crescimento, podendo reagir a algum fator ambiental situacional, como crises entre os pais, separações prolongadas dos mesmos, nascimento de irmãos, entrada na escola, mudanças repentinas ou perdas.

Por trás de vários sintomas, como agressividade, falta de sono ou apetite, terror noturno, irritabilidade, desconcentração, mudanças bruscas de humor, dificuldades na escola, etc, pode estar um transtorno de ansiedade ou depressão infantil, como exemplos, que necessitam ser tratados com cuidado especial de um profissional.

Este estado emocional pode baixar a resistência do sistema imunológico e favorecer a instalação de doenças. A ansiedade é normal, mas tornando-se intensa pode levar a distúrbios de ordem somática, como náuseas, irritabilidade, que sinalizam que algo perturba a segurança e integridade da criança.

Os instrumentos da psicanálise podem ser muito importantes para contribuir nesses quadros, auxiliando no diagnóstico e na compreensão dos diversos fatores que estariam intensificando o comportamento alterado e que impõe medidas de profilaxia, ajudando a criança ou adolescente, e por extensão os pais, a encontrar meios de canalizar as tensões e enfrentar os medos e inseguranças. Se neste momento a família consegue se reavaliar e reinventar novas formas de relacionamento, também conseguirá trabalhar em prol de um futuro melhor para essa criança.

Jean Piaget, estudou detalhadamente todas as fases do desenvolvimento da criança e a psicogênese do conhecimento. Além de suas obras, muitos autores fazem referência aos seus estudos.

Para PIAGET o conhecimento não está no sujeito, nem no objeto exclusivamente, mas na interação indissociável entre ambos. A criança entra em contato com o objeto, experimenta-o por meio de seus sentidos, usa-o de todas as formas e define-o pelo uso que faz dele. A inteligência estrutura-se elaborando formas de adaptações progressivamente mais complexas. O ato de conhecer precisa de conteúdos externos para que se efetive, sendo assim, implica a necessidade e a possibilidade de trocas entre o sujeito e o meio físico, social, e cultural.

Dessa forma, a criança que possui ambiente limitado, que não favoreça a interação entre o sujeito e o objeto, e adultos que não estimulem adequadamente, podem sofrer déficit na aprendizagem, mesmo que não apresentem deficiência biológica.

Este autor classifica o desenvolvimento intelectual/cognitivo das crianças em etapas ou estágios, sendo que em cada fase obedece a uma sequência e tempo de permanência determinados, pelo qual a criança vai dos conceitos básicos para o complexo, como sendo cada fase pré-requisito para a próxima.

Citarei as etapas de desenvolvimento que, segundo esse autor toda criança deve atravessar.

Período Sensório Motor (zero a dois anos):

Nesta fase a criança explora o mundo através dos sentidos, isto é, ela precisa tocar, provar os objetos. Nesse estágio as ações geralmente não são intencionais, a aprendizagem ocorre "acidentalmente", por reflexos.

Período Pré-Operatório (dois a sete anos):

Corresponde ao período da educação pré-escolar. Aparece a função simbólica, isto é, os objetos começam a ser representados por símbolos: um cabo de vassoura é cavalo, uma cadeira empurrada é um trem, etc. É uma fase fortemente egocêntrica (a criança se vê como o centro de tudo que acontece ao seu redor) e caracteriza-se pela irreversibilidade, ou seja, a criança considera que todos pensam como ela. A noção de espaço, adquirida por volta de dois anos, antecede a noção de tempo, surgindo por volta dos quatro anos. A criança também não consegue ainda entender transformações, mesmo que elas ocorram na sua presença. 

Período Operatório Concreto (sete a onze anos): A criança já consegue usar a lógica para chegar as soluções da maior parte dos problemas concretos. Entretanto, sua dificuldade aumenta quando se trata de lidar com problemas não concretos.

Período Operatório Formal (onze a quinze anos): O pensamento lógico já consegue ser aplicado a todos os problemas que surgem (o que não implica dizer que todo adolescente é totalmente lógico nas suas ações). Piaget também destaca que o desenvolvimento das operações mentais depende de um meio rico em estímulos. Em um ambiente adequado e propício, a criança desenvolve suas potencialidades, favorecendo assim não só seu crescimento físico, como o emocional e o social.

Há uma série de fatores que influenciam o desenvolvimento infantil, por exemplo, uma criança de dez anos que volta a fazer xixi na cama, apresenta patologia? As vezes não, a chegada do irmão mais novo, por exemplo, pode ser um dos fatores causadores.

Uma dica aos pais, perceberam qualquer alteração no comportamento da criança ou adolescente, que o impeça de seguir sua rotina, persistindo por um período longo, procure ajuda de um profissional, certamente há algo operando que está causando o bloqueio.

(*) A autora é graduada em psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, Especialista em psicologia clínica psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua em uma clínica, situada a rua 7 de setembro, 3168, Vila Nery - São Carlos/SP e como psicóloga clínica e social em uma organização não governamental. Telefone de contato: 16 997375436. Dúvidas e sugestões: biagian@hotmail.com. Facebook: Bianca Gianlorenço

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