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segunda, 19 de abril de 2021
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DIA A DIA NO DIVÃ: Dependência química, um desafio para todos

16 Out 2017 - 03h03Por (*) Bianca Gianlorenço
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

A Organização Mundial de Saúde, sugere hoje, como item prioritário para os sistemas de saúde de todos os países, o desenvolvimento de estratégias de prevenção, tratamento e esclarecimento para as dependências químicas, incluindo não apenas cocaína, crack e maconha, mas também álcool e tabaco.

Para cada 10 pessoas internadas em hospitais do mundo todo, sete estão lá pela complicação do uso de alguma substância química. Exemplos corriqueiros são:

  • Cirrose causada pelo consumo de álcool;
  • Câncer de pulmão e de mama ligados ao uso de tabaco;
  • Traumas cranianos adquiridos por condutores dirigindo embriagados;
  • Acidentes vasculares cerebrais secundários associados ao uso de cocaína;

No Brasil, a cada 10 tentativas de assassinato por arma de fogo, oito delas acontecem com o agredido e/ou agressor estando sob o efeito de álcool ou outra substância psicoativa. Vale dizer que morte por armas de fogo é a causa mais frequente de morte em menores de 20 anos no país!

Somado a isso, está o prejuízo permanente no psiquismo de crianças que assistem a cenas de violência doméstica, inevitavelmente ligadas ao uso de álcool pelo(s) pai(s), além da desintegração das estruturas familiares que ocorre quando um ou mais filhos desenvolve dependência química.

Fica então evidente a necessidade que, deve, partir tanto dos pais quanto dos educadores e profissionais de saúde, de compreender melhor em que consistem as dependências químicas e de quais recursos dispomos para lidar com o problema.

Primeiramente, falemos um pouco sobre as chamadas "drogas". Com essa denominação geral, a cultura se refere a um grupo de substâncias psicoativas que podem causar dependência e trazer outros danos psicossociais. É importante lembrar que nem todas as substâncias psicoativas são proibidas (legalmente): álcool, tabaco e medicações psiquiátricas são substâncias psicoativas que não tem seu comércio proibido, apesar de, assim como as outras drogas, poderem causar dependência e trazer agravos maiores à integridade sócio-neuro-biológica da população.

Em segundo lugar, algumas palavras sobre "dependência". O que se chama em geral de dependência refere-se à dependência química: fenômeno neurobiológico no qual o uso regular de uma substância modifica o organismo do usuário de forma que ele passe a apresentar dois fenômenos clínicos:

  • Síndrome de abstinência: quadro no qual, após a interrupção do uso da substância, a pessoa passa a exibir sintomas desagradáveis e alterações clínicas potencialmente comprometedoras da vida, como alucinações auditivas e visuais.
  • Tolerância: acontece quando o sujeito passa a precisar de quantidades gradativamente maiores da substância para obter os mesmos efeitos que conseguia de início com quantidades menores.

Diferente da dependência química, falamos de uso abusivo de uma droga quando, apesar do sujeito não sofrer de sintomas de abstinência, quando o uso é interrompido ou mostrar tolerância a quantidades cada vez maiores de ingestão da substância, as situações de uso são de grande prejuízo. O uso abusivo da droga desencadeia, principalmente:

  • Acidentes de trânsito ao dirigir intoxicado;
  • Overdoses;
  • Prática de sexo indiscriminado sem qualquer tipo de proteção;
  • Exposição a situações de violência; etc.

O impacto dessas substâncias, vai muito além do próprio usuário. O abuso das drogas atinge 28 milhões de famílias brasileiras, as quais não sabem lidar com a questão.

O início do uso comumente é recreativo. Crianças crescem vendo seus pais tomar cerveja com os amigos sem conflito, pois todos acreditam que ela funciona para se soltar, se alegrar e aliviar angústias.

Após a experiência recreativa, se a pessoa não está relativamente bem consigo, o uso torna-se uma necessidade, forma de esconder e não cuidar de suas angústias, de maquiar uma autoestima frágil ou, ainda, companhia para uma ideia solitária de inferioridade. Normalmente, acabamos assistindo a mudança de usuário para dependente. Isso muda tudo!

O uso contínuo das substâncias cria no cérebro a informação de que a sensação prazerosa deve ser repetida, passando de uma mera "vontade" para compreensão de que o corpo dá prioridade àquela satisfação.

Determinante na dependência não é o fato de ele "ter" tudo (casa, família, dinheiro, estudos) ou não ter nada disso, e por isso teria virado dependente químico. Essa história não se constrói sozinha. De alguma forma, aquele indivíduo ficou sem contorno, preenchido por coisas soltas dentro dele; ou limitado, "representando" uma demanda familiar, que seu ego se tornou enfraquecido e todas as suas crenças negativas sobre si, ganham força.

As relações sofrem com as manipulações, que além de uma forma de sustentar o vício, também alimentam a ideia de domínio, poder e conquista, que ele supõe exercer quando consegue o que quer, já que a ideia de controle é impossível sustentar.

Quando a pessoa ainda não se dá conta da dependência, sua frase de onipotência é "eu paro quando eu quiser". Mas essa onipotência se perde, e ela transfere essa fantasia para o domínio, não mais da droga e sim dos outros.

Assim, todo dependente tem seu codependente, que, sem perceber, alimenta um jogo patológico onde as dificuldades de todos os envolvidos são postas à prova em cada situação de risco, seja quando o NÃO fica silenciado, a necessidade de cuidar dele impossibilita a abstinência, ou ainda, quando a exigência pela recuperação esquece de considerar o contexto de todos que adoecem juntos, e não só o dependente químico.

Considerar todas as variáveis, favorecer o cuidado e a atenção aos envolvidos e não apenas ao dependente químico, aprender a manejar as fragilidades e potencializar as bases positivas das relações, precisam ser o esqueleto de cada projeto terapêutico dessas famílias, que precisarão aparar todas as arestas para lutar contra possíveis recaídas.

Apenas quando o núcleo daquele dependente é tratado, com todos os envolvidos na construção da fragilidade que gerou esse sintoma, é que as chances de sucesso nos tratamentos aumentam. É muito importante que o usuário não se transforme num alvo fácil de acusações e depósito das negações familiares.

A Dependência Química é considerada um transtorno mental, em que o portador desse distúrbio, perde o controle do uso da substância, e a sua vida psíquica, emocional e física vai se deteriorando gravemente. Nessa situação, a maioria das pessoas precisa de tratamento e de ajuda competente e adequada. Dependência química não é simplesmente "falta de vergonha na cara" ou um problema moral, é uma doença, e o dependente químico assim como a família, deve buscar ajuda para controlar a adicção e entender o ciclo da doença. É considerada uma doença BIOPSICOSSOCIAL.

(*) A autora é graduada em psicologia pela Universidade Paulista. CRP:06/113629, especialista em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade Salesianos de São Paulo e Psicanalista. Atua como psicóloga clínica.

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