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sexta, 22 de novembro de 2019
Memória São-carlense

D. Constantino Amstalden, o “Soldado de Cristo”

03 Mai 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
D. Constantino Amstalden, o “Soldado de Cristo” - Crédito: FPMSC/Diocese de São Carlos Crédito: FPMSC/Diocese de São Carlos

Dom Constantino Amstalden, o quarto bispo da história da Diocese de São Carlos, se empolgava ao falar das obras da igreja de São Nicolau de Flue, que ajudou a construir no Jardim Botafogo.  Eu me recordava do fato há poucos dias, ao rever uma foto em que apareço ao lado dele e do Dr. Reginaldo Zavaglia, da Sociedade São Vicente de Paulo, numa das visitas à construção, já em fase final, no ano de 1989. Lá se vão três décadas!

São Nicolau de Flue, Niklaus von Flue, “Bruder Klaus”, patrono da Suíça, fora seu ascendente familiar. Soldado na juventude, ele inspirou o Bispo na definição de seu lema: Sicut Miles Christi (Como soldado de Cristo), que afinal Constantino também fora ao servir o Exército em Indaiatuba, tendo inclusive se preparado para ir à II Guerra em 1944.

D. Constantino mencionava a força da oração que São Nicolau de Flue recitava todos os dias: “Meu Senhor e meu Deus, tome tudo de mim que me afasta de Ti/Meu Senhor e meu Deus, dê-me tudo que me leva a Ti/Meu Senhor e meu Deus, tome-me todo e faça-me todo Teu”.

Poucos religiosos aqui radicados como ele e seu antecessor, Dom Ruy Serra, se incorporariam tão bem à cidade de São Carlos, e isso ficava claro assim que o conhecíamos, dado o seu entusiasmo com as coisas da comunidade local. E eu o vi pela primeira vez num momento especial, como celebrante do sacramento da Crisma que recebi quando D. Constantino era recém-chegado ao posto de Bispo Coadjutor da Diocese.

Ele foi recebido com festa no dia 22 de junho de 1971, após sua ordenação episcopal ocorrida em 23 de maio daquele ano em Campinas. Iniciava-se ali uma longa jornada na qual foi confirmado como Bispo titular em 1986 após a morte de D.Ruy e se tornou bispo emérito de 1995, quando completou 75 anos, até seu falecimento em 1997.

As missas concelebradas pelos dois bispos eram marcantes, como em 1978, na Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora na posse da Congregação dos Padres Salesianos de Dom Bosco na administração do Educandário São Carlos.

Nesse período, D. Constantino em plena forma percorria o extenso território da Diocese, onde demonstrava ser um religioso atuante, como se mostrava acessível, um conhecedor dos hábitos do povo do interior, capaz de compartilhar boas prosas e pescarias. O bispo gostava de embarcar com amigos são-carlenses para pescar e, segundo diziam, dominava os macetes do ofício (quem sabe tivesse a inspiração no relato bíblico dos pescadores que seguiram Jesus).

Outro aspecto marcante do cidadão além do religioso era o gosto de D. Constantino pelos esportes, especialmente o futebol. Em várias oportunidades, lá estava ele no Estádio Professor Luis Augusto de Oliveira para dar o pontapé inicial de uma partida beneficente.

Nascido na Colônia Helvetia, oitavo numa família de 11 irmãos, Dom Constantino foi ordenado presbítero no dia 8 de dezembro de 1947 em Santa Ifigênia, na Capital, e bispo no dia 23 de maio de 1971, em Campinas. Os pais, Benedicto Amstalden e Philomena Sigrist Amstalden, eram agricultores e apoiaram o filho desde o primeiro instante em que decidiu seguir os passos de Bruder Klaus.

Aos 20 anos, Constantino foi estudar Filosofia e Teologia no Seminário Central do Ipiranga em São Paulo. Após a ordenação sacerdotal, assumiu como Vigário Cooperador de Santo Amaro em 1948 e a partir e 1949, por vinte anos, foi professor, coordenador da comunidade, Ecônomo e Reitor do Seminário de São Roque, da Arquidiocese de São Paulo.

Respondia pela Paróquia do Divino Espírito Santo, em São Paulo quando o Papa Paulo VI o nomeou Administrador Apostólico “Sede Plena” da Diocese de São Carlos. Dom Ruy Serra conservou o título de Bispo Diocesano, cabendo a seu coadjutor a administração da Diocese a partir de 25 de junho de 1971.

Com a experiência de formador de sacerdotes, Dom Constantino deu continuidade ao estimulo às vocações sacerdotais. Ainda em 1975, no Seminário de São Carlos, Dom Constantino construiu um refeitório-modelo e fundou em Campinas, em 1981 o Seminário de Teologia da Diocese de São Carlos, Casa de Formação São Carlos, no bairro Chácaras Primaveras.

Se no âmbito eclesial o bispado de Dom Constantino foi fecundo (criou 21 Paróquias e ordenou 70 padres), foi no âmbito comunitário que ele demonstrou a sua sensibilidade social e a determinação de agir em favor dos menos favorecidos. E não apenas para ações paliativas, como para a busca de benefícios estruturais.

Foi assim que ele se tornou um dos protagonistas do movimento que no final da década de 1980 pressionou o poder público municipal a urbanizar uma área conhecida como “Favela do Gonzaga”, formada na periferia da cidade dez anos antes. O favelamento ainda não era uma realidade local, mas seria rapidamente se algo não fosse feito naquele momento – e então o bispo D. Constantino perfilou ao lado dos que buscaram a urbanização do bairro que anos depois ganhou o nome de “Jardim Gonzaga”. Estudos avaliaram que aquele processo reacendeu a discussão sobre as demandas por habitação popular na cidade, bem como sobre a ausência de infraestrutura na periferia de São Carlos.

O bispo fez questão de comparecer à inauguração dos serviços públicos implantados no bairro no dia 21 de abril de 1990, depois que a Lei Municipal nº 10.210/89, concedeu à Sociedade Comunitária de Habitação Popular de São Carlos subvenção destinada à urbanização da favela.

No imenso território da Diocese, o bispo comparecia a cada localidade para fazer as Crismas, cerimônias nas quais estabelecia contato cada comunidade e tinha uma visão geral de todo o “rebanho” que lhe incumbia conduzir – e o fazia de forma presente, atuante. Sobretudo porque tinha alegria, e as pessoas que mais perto dele conviveram testemunhavam seu frequente bom humor e presença de espírito.

Ao completar 75 anos, entregou à Santa Sé o seu pedido de renúncia, de acordo com as normas da Igreja, sendo sucedido pelo bispo Dom Joviano de Lima Júnior, da congregação do Santíssimo Sacramento.

No ano de 1996, num dos mais marcantes eventos religiosos realizados na Catedral, D.Constantino comemorou os 25 anos de Bispado, em cerimônia com presença de 20 Bispos e uma centena de padres, além de expressivo comparecimento da comunidade católica de toda a Diocese. Na ocasião, brilhantemente se apresentou o Coral dos Casais Encontristas, liderado pelos professores Wilson Wady Cury e Diana Cury.

“Foi num clima de festa que Deus o chamou”, informa o relato oficial de sua biografia. Dom Constantino recebia a visita de seus parentes da Suíça e com eles fazia uma confraternização numa chácara de Itirapina quando faleceu na tarde do dia 14 de fevereiro de 1997.

O homem de espírito jovial e entusiasmado “partiu, deixando a todos um sorriso de dia de festa”. Seu corpo foi sepultado na Catedral Diocesana de São Carlos onde a memória de suas palavras e suas ações ecoam e certamente inspiram a todos para a continuidade de sua obra religiosa e humana.

D. Constantino foi homenageado pelo município com a atribuição de seu nome ao Loteamento Social São Carlos VIII, conforme a Lei Municipal No. 12.670, sancionada em 11 de outubro de 2000.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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