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sábado, 23 de outubro de 2021
Artigo Netto Donato

Como entenderemos a tragédia de Suzano?

21 Mar 2019 - 09h39Por (*) Netto Donato
Como entenderemos a tragédia de Suzano? -

Um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível. Essa é a definição de modernidade para Zygmunt Bauman, a modernidade líquida, como assim ele conceituava o período em que vivemos.

Segundo o filósofo e sociólogo polonês, falecido em 2017, nossa forma de vida atual se assemelha pela vulnerabilidade e fluidez, somos incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos.

Infelizmente, semana passada, vivenciamos quão frágil estão nossos laços humanos.

Nossos laços são frágeis quando em um ataque injustificado de fúria, dois jovens invadem e vitimam alunos da própria escola onde estudaram, fazendo inúmeras vítimas, sendo oito delas fatais. Foi um verdadeiro rompimento dos nossos laços de humanidade, o que se desfaz ainda mais quando se noticia que os dois jovens contaram com a participação de um terceiro, sob o qual paira indícios de ter dado suporte e de ser inclusive o mentor deste ataque. Tudo isso arquitetado através da Internet.

Não consigo parar de questionar: o que faz com que adolescentes cometam tamanha atrocidade? Acredito não existir resposta simples para essa pergunta, nem tampouco uma única resposta correta. Se é que ela existe.

O que temos é que, através da Internet, jovens que são isolados ou não aceitos por determinados grupos, se sentem excluídos, e pela necessidade de pertencimento, inerente ao ser humano, encontram em fóruns na “Deep Web” uma fuga para suas frustrações, pois lá encontram outros jovens que, assim como eles, também se sentem excluídos.

A necessidade de aceitação faz com que muitos jovens busquem aprovação e pertencimento dentro desses grupos e fóruns, que funcionam como uma ferramenta de aprovação de seus atos em uma realidade distorcida, onde muitos dos valores são invertidos e os extremos encontram solo fértil.

Nesses tempos de sinais confusos e de extrema imprevisibilidade, muitos são os jovens que apresentam angústias, depressões e que acabam por se isolar do seio social, inclusive do próprio seio familiar, sem muitas vezes nos darmos conta, os quais acabam encontrando uma falsa sensação de pertencimento em grupos e fóruns na Internet.

Fato é que a tragédia na escola Raul Brasil em Suzano acende o sinal de alerta para a realidade dos jovens. Existem muitas frustrações, conflitos e angústias nos dias de hoje. Precisamos acompanhar nossos jovens ainda mais de perto, sempre com bastante cuidado e respeito, ajudando-os a trilhar um caminho correto, canalizando suas dificuldades, mostrando-lhes que são várias as possíveis opções para solucionar conflitos, sem esquecermos do acompanhamento e supervisão de profissionais capacitados nas áreas da educação e saúde, bem como da família, que é de suma importância.

Uma política pública preocupada e focada no desenvolvimento pleno da criança e do adolescente até a chegada à vida adulta é imprescindível. Para concretizarmos isso e para que possamos superar o trauma deixado em nossa sociedade, precisamos do apoio das famílias, da escola, do poder público (com enfoque em políticas públicas na educação e saúde de crianças e adolescentes) e de todos da sociedade. O caminho deve ser sempre a união indissolúvel de esforços para enfrentar as dificuldades e encará-las de frente, sem medo, protegendo nossos jovens, dando-lhes força e esperança de dias melhores, mostrando-lhes o caminho, guiando-os como um dia fomos guiados, como um adulto que segurou o banco da sua bicicleta até que você percebeu ter confiança suficiente para poder andar sozinho.

(*) O autor é advogado, especialista em Direito Público e mestre em Gestão e Políticas Públicas, na Fundação Getúlio Vargas - FGV/SP.

O exposto artigo não reflete, necessariamente, o pensamento do São Carlos Agora.

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