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terça, 15 de junho de 2021
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Coluna de Rui Sintra: Conversas de defunto

11 Ago 2015 - 10h14Por Rui Sintra - Colunista
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É perfeitamente compreensível o clamor, a revolta e a indignação popular em face aos novos desdobramentos da operação "Lava Jato", nomeadamente no que diz respeito à prisão do ex-ministro José Dirceu e ao alegado envolvimento de muitas e importantes personalidades diretamente ligadas a diversos partidos políticos, entre eles o PT, o PMDB, o PP e, consequentemente, alguns órgãos governamentais, o que, particularmente, também é perfeitamente compreensível a estupefação e mesmo incredibilidade de muitos militantes do PT (principal partido do governo) em face desses cenários.

É preciso não esquecer que há doze anos, o Partido dos Trabalhadores trouxe - de fato - uma lufada de ar fresco na política nacional - afinal, a alternância no poder é sempre benéfica quando no horizonte se colocam, primordialmente, estratégias de Estado que a todos beneficiam, sem espaço para mentiras, trapaças ou pedaladas em seco. Contudo, o PT deixou-se enredar em suas próprias teias, criou caminhos paralelos e, devido a uma crescente e incontrolável sede de poder totalitário, perdeu-se no perverso labirinto dos interesses individuais de alguns de seus membros e de subgrupos que, entretanto se foram criando, transformando o partido em perigosos retalhos estrategicamente colocados na margem da Lei.

Hoje, torna-se fácil ao cidadão comum - e até ao próprio militante petista mais clarividente -,enxergar o motivo pelo qual inúmeras figuras importantes do partido, tidas por muitos como pessoas altamente válidas e competentes para o país, foram abandonando, ao longo do tempo, uma ideologia que deixou de corresponder ao sonho e à estratégia inicial que quase convenceu o mundo de que o Brasil se tinha descoberto a ele próprio, abrindo-se para o exterior. É óbvio que as ações criminosas descobertas, primeiro através do "mensalão" e agora com o "petrolão", nada abonam em favor do Brasil - muito pelo contrário -, já que o país se afunda mais a cada dia que passa, enquanto sua credibilidade já bateu no fundo, com gravíssimos reflexos para a economia nacional. Também é óbvio que a oposição em nada acrescentou ao panorama, pela forma como não conseguiu ainda afinar a voz.

Se, por um lado, essa oposição é moralmente obrigada a criticar e a bater no cadáver, por outro lado ela tende a se esquivar de assumir protagonismos, já que está visto que não quer herdar o figurino do defunto - até porque não saberia como vesti-lo. Na melhor das hipóteses, a oposição continuaria aquilo que já está sendo implementado, ou seja, prosseguir com os programas instituídos (não teria outra hipótese), gerir dívidas enormes, aguentar pressões do empresariado e da sociedade civil e continuar a esgrimir com políticas completamente equivocadas em todos os níveis. Então, se é para fazer isso, o defunto que continue a apodrecer, pelado, em seu sarcófago.

Está claro que o povo mostra que definitivamente não quer confiar mais nos partidos que estão atualmente no governo, principalmente no PT, envolto em escândalos e incapaz de governar sem uma "ajudinha" - vejam-se os índices de aprovação do governo e da Presidente, nem no PMDB, que continua sendo visto como um "parasita" governamental, nem na tal oposição que não consegue ter um discurso e uma atitude uma e clara: Então, o que fazer? Para muitos brasileiros, todos os partidos têm que parar para repensar sua própria existência, suas estratégias, suas filosofias e ideologias, principalmente o PT, que é governo, até porque se continuar da forma como está, seu futuro estará comprometido, já que ninguém parece aceitar, entre outras coisas, que o país tenha alguém que se julga líder supremo - tipo aiatolá. Em segundo lugar, parece começar a ser um consenso que há a necessidade de se criar uma enorme mobilização política unitária, quer à esquerda, quer ao centro, unicamente em prol do BRASIL e não em benefício deste ou daquele partido, desta ou daquela individualidade mais privilegiada, embora a questão esteja em saber QUEM IRÁ LIDERAR O PROCESSO, QUEM É QUE IRÁ DAR A FACE. Embora a generosidade da ideia seja tolerada na teoria, a prática aponta que os conchavos instituídos não permitirão que se abra caminho nessa direção, num sistema político que nitidamente está falido e onde a verdadeira gênese da corrupção começa exatamente no momento em que um político faz alianças em troca de cargos em ministérios ou em empresas públicas, ao mesmo tempo em que simultaneamente e por outro lado, teatralmente reivindica que o Estado deve cortar ministérios em prol do ajuste fiscal: é aqui que as metástases dos cânceres evoluem. Se, por um lado, o povo brasileiro está passando por um momento extremamente difícil e que não é apenas uma travessia, como alguns querem fazer crer, se esse mesmo povo perdeu por completo a confiança nos seus representantes políticos e mesmo nos seus órgãos governativos, nomeadamente pelas ilegalidades e crimes praticados, o certo é que ele pode, por outro lado, extrair algo muito importante e positivo desta lamentável situação: é que, dentre a amálgama de bandidagem, o povo pode confiar plenamente na dedicação do Ministério Público, na competência da Polícia Federal, na determinação da Procuradoria Geral da República e na ponderação do Supremo Tribunal Federal, onde, para esses órgãos, não existe ninguém acima da Lei e da Constituição.

As informações do texto acima são de inteira responsabilidade do autor.

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