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quinta, 15 de abril de 2021
Memória São-carlense

Coisa de Cinema

29 Mar 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Coisa de Cinema - Crédito: Acervo FPMSC Crédito: Acervo FPMSC

“A gente passou a mocidade dentro do cinema. Saí de lá velho”.

Acompanhada de uma expressão resignada, esta frase dita por Feliciano Dagnone, um antigo projetista de filmes, fechava de modo memorável o documentário “Um Século de Cinema em São Carlos”, realizado em 1998 pela extinta produtora Ômega.

A história de São Carlos, aquela feita por gerações e mais gerações de jovens, também passou dentro do cinema. Não um, nem dois, nem três. Muitos deles. Cenários de amores, de euforia ou de puro entretenimento que marcaram a vida de muita gente. Os registros, os depoimentos, no fundo, são reveladores do modo de vida do povo de São Carlos ao longo do tempo.

Histórias dentro da história, de espectadores-protagonistas. Do cinematógrafo de Faure Nicolay aos atuais projetores das salas do Iguatemi, do Cine São Carlos, do Sesc, da CDCC e da UFSCar.

No meio, um longo roteiro. Na verdade, contar a saga dos cinemas na cidade é algo que está ao alcance de cada um. Porque cada um viveu de um jeito e ao mesmo tempo de modo igual o que se passou desde a era dos cines teatro. Quando a gente quer lembrar de um tempo bom, um tempo feliz, em geral nos vem à memória uma canção. Ou um filme. Alguns até nem vimos, distraídos no passeio da mão boba e do beijo demorado.

Havia um clima de “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” quando o cine São Carlos, uma fortaleza fincada na praça Coronel Salles, vivia seus últimos momentos. A garotada do Paulino Carlos gostava de apreciar a arte do Zé Pintor, o desenhista dos anúncios de filmes. Hoje diriam que ele fazia um “work shop”. Por causa de um de seus desenhos me aventurei a ver aos 13 anos um filme com classificação para 14, “Inferno na Torre”, ainda sob o impacto das imagens do incêndio do edifício Joelma. Estavam frescas na memória as fotos chocantes do Joelma em chamas na capa do jornal que meu pai chamava de “Folha da Manhã”.

São Carlos era a cidade do Cine São Carlos, do Cine Avenida, do Cine Jóia e do Cine São Sebastião. Como esquecer das imagens e da música do Canal 100, que nos colocavam dentro do campo, ouvindo até o som da batida na bola e das redes balançando? Do sufoco de ver “Tubarão” na tela do Avenida? Ou o choro da Rita, minha irmã, diante de “O Campeão” e “Doutor Jivago”?

Na adolescência passamos distraídos pelos “causos” contados pelos antigos e só depois atinamos para o que perdemos. A geração que cresceu nos “anos de chumbo” acabou virando especialista em ver transições. Aquela, da cidade que demolia salas de cinema para pôr no lugar o vazio, era marcante. Se havia um “Homem que virou suco”, também o Polytheama, o São José, o Colombo, o Paratodos, São Carlos, o Avenida. Um por um seriam colocados no liquificador da “modernidade”. A presença dos porteiros engravatados entre os quais o sempre elegante “seu” Ítalo, inspetor da Álvaro Guião, era o elo entre dois tempos quando restavam os Studios I e II e depois por muito tempo só um.

O Joia virou banco. O São Carlos virou um gramado na praça.O Studio virou Igreja e qual fênix ressurgiu com o nome de “Cine São Carlos”. E o velho Avenida virou estacionamento. Não sem o protesto silencioso de um velório na rua.

Os colegas que depois da sessão davam um pulo na lanchonete “A Caprichosa” aprendiam na vida real a fala de Houve uma vez um verão, o filme que passou antes da discoteca: “A vida é feita de pequenas idas e vindas. E, para cada coisa que a gente leva conosco, tem alguma coisa que a gente deixa para trás”.

Ficavam para trás as histórias quase lendárias que se contavam e que revi no documentário da Omega. De quando filmes exibidos em São Carlos vinham em apenas uma cópia e passavam ao mesmo tempo no São José e no Cine São Carlos e eram transportados de um para outro em bondes que atrasavam e davam confusão. De quando os projetistas não trocavam os rolos que eram empilhados em ordem numérica e faziam personagens mortos retornarem à cena. Ou de quando um cara conhecido por Estepe, viciado em mastigar amendoins e jogar cascas nos outros, cismava de soltar uma bomba morteiro em pleno cinema. Acendiam as luzes, faziam-se batidas policiais mas o gaiato jamais foi preso. Ou de quando houve um apagão durante a exibição do filme “Gloriosa Vingança”, e então a plateia decidiu incorporar o nome da película e encenar em cinemascope colorido um quebra-quebra épico.

Nicola Gonçalves conta tudo em detalhes numa deliciosa crônica. As imagens que seus escritos projetam e também o documentário da Ômega comprovam o passado glorioso da sétima arte que em São Carlos sempre desmentiu a previsão de Adolph Zukor, o chefe da Paramount que dissera: “O cinema falado nunca dará certo. É demasiado barulhento e impede que as pessoas durmam durante o filme”.

São Carlos chegou a sediar um festival de cinema e viu um filho seu, Genésio Arruda, no elenco do primeiro filme sonoro nacional, Acabaram-se os otários.

Um nome curioso, quase um aviso quando em matéria de salas de exibição de filmes do circuito comercial na cidade, se o futuro repetir o passado estará de bom tamanho. Na plateia haverá sempre um público ávido por ver uma grande história ser contada, desde os tempos dos amendoins do Estepe até os baldes de pipoca de agora.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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