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sexta, 20 de setembro de 2019
Artigo Antonio Fais

Círculo Vicioso

07 Jun 2019 - 14h54Por (*) Antonio Fais
Círculo Vicioso -

A empregada, descontente pelo tratamento que recebia da patroa, uma dondoca que repartia o tempo entre as compras, com o dinheiro que já não tinha, o cabeleireiro e, diziam as más línguas, um amante; e pelo seu salário, que, embora mínimo, atrasado, com muito serviço acumulado, esqueceu-se que já havia salgado o feijão e pôs mais sal!

Não poderia prever, a pobre coitada, de mínima instrução, só não menor que seu salário, e máxima paciência, apenas superada pela quantidade de ameaças que recebia da patroa, que não a demitia pelo simples fato desta não ter dinheiro para pagar-lhe as contas devidas, além do atrasado, o desencadear de fatos que iriam se suceder pelo seu pequeno erro. Escapou, desta feita, da bronca, por ter ido embora antes do Dr. Jorge chegar para comer o feijão.

Dr. Jorge, dono de uma grande empresa, que ia muito mal, cheia de dívidas e credores, com, já poucos, funcionários, descontentes, também com o pagamento em atraso e excesso de trabalho, sabedor da incompetência administrativa do lar de sua esposa e sua competência consumidora, já desconfiado de sua fidelidade, descarregou tudo no maldito feijão! Resultado: a briga fez com que a mulher não falasse mais nesta noite com ele, e nada mais, é claro, o que aumentava sua desconfiança, pelo jejum estabelecido pela esposa, e não conseguisse pregar o olho durante a noite toda.

Ao chegar na empresa, já de mau humor, pela noite mal dormida e a tensão acumulada, por assim dizer, recebe a notícia que, por uma falha em um documento, perdera uma concorrência que daria um pequeno fôlego à empresa. Chama o diretor responsável pelo documento e o esculhamba, em voz alta, de porta aberta, com palavras que causariam vergonha em qualquer estivador de porto.

Este, ao sair, cabisbaixo, sob o olhar da secretária e dos que esperavam para falar com o Dr. Jorge, a maioria credores, além de um oficial de justiça, por sua vez, chamou o gerente e dispensou, se é que fosse possível, um tratamento pior do que recebera.

O gerente, irritado, humilhado, chamou o chefe da seção responsável e aos gritos e ameaças, mandou-lhe sair logo de sua sala, não sem antes lhe mandar para dois lugares que, apesar de imagináveis, não posso citar aqui.

Um encarregado, que provavelmente teria pouco a ver com o fato, recebeu todos os xingos acumulados do Dr. Jorge ao chefe e, por sua vez, ao ver o um faxineiro sentado, mandou-o embora, não economizado ofensas.

O pobre coitado, que não tinha em quem descarregar, nem no cobrador do ônibus, pois este dinheiro não tinha, ao chegar em casa, antes até de que a mulher lhe perguntasse porque chegara mais cedo, meteu-lhe a mão, com tanta força, que esta nem se atreveu, com medo, a perguntar por que apanhara.

Ao chegar à casa em que trabalhava, no dia seguinte, triste e desnorteada pela surra e já levando bronca da patroa pelo dia anterior, e sendo avisada para não errar hoje na comida do patrão que, para fazer as pazes com a esposa, deixara um dinheiro extra para, desta vez, comprar carne, algo em falta na casa em crise, nem imaginava que iria novamente errar e queimar a carne do Dr. Jorge.

(*)   O autor é escritor e filósofo

 

 

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