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quarta, 08 de dezembro de 2021
Artigo Rui Sintra

Câncer de mama - Uma luta feita com paciência, resiliência e Fé

22 Out 2021 - 06h00Por (*) Rui Sintra
Câncer de mama - Uma luta feita com paciência, resiliência e Fé -

“Tenho uma responsabilidade social em alertar as mulheres da Comunidade do IFSC/USP - e não só -, que é extremamente importante realizarem periodicamente o exame para a detecção do câncer de mama. O mês de Outubro Rosa é o mês de conscientização do câncer de mama, então faço aqui um pedido a todas as mulheres, em especial as mais jovens, para que façam os exames e que façam visitas regulares ao médico. O diagnóstico precoce traz altíssimas chances de cura. Tocar nossos corpos com frequência e prestar atenção a todos os pormenores é muito importante para o autoconhecimento, mas veja que isso não é suficiente. Você pode não ter detectado nada de anormal em seu corpo, mas o câncer pode estar lá, silencioso. Por isso é indispensável fazer periodicamente (anualmente) um exame complementar. E se tudo isso é extremamente importante, principalmente para mulheres acima dos 40 anos, o fato é que o número de mulheres jovens com câncer de mama vem aumentando e essa prioridade - essa quase obrigatoriedade - também deveria ser seguida por mulheres mais jovens, já que o câncer de mama não as exclui da lista. Olhem para mim e me vejam como um exemplo. Tenho 31 anos e tive câncer de mama...” Esta é a mensagem de conscientização transmitida por Raíssa a todas as mulheres, numa conversa que nos cativa imediatamente, atrás de um sorriso permanente, luminoso, contagiante.

A pandemia não obrigou Raíssa a diminuir a velocidade que imprimiu em sua vida, desde muito nova. Inquieta por natureza, com objetivos claros e marcando sua caminhada com passos seguros e firmes rumo a um futuro previamente delineado, Raíssa encarou a pandemia com tranquilidade, protegendo-se a si e aos outros, e apenas um obstáculo, quase intransponível, conseguiu deter sua trajetória. Deter?... Cremos que não... Apenas houve um... Pequeno atraso nessa caminhada...

Raíssa Ferreira Gutierrez (31), nascida em Bragança Paulista, é doutoranda no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e seu caminho profissional desaguará, certamente, em pesquisas na área da saúde. “Filha” do Instituto, já que fez sua graduação, mestrado e agora doutorado, Raíssa - desde sempre apaixonada por exatas - trocou a Medicina (desejo de sua mãe) pela Física, uma decisão tomada ainda no 1º Colegial (2006) quando, por mero acaso, encontrou um folheto do IFSC/USP que anunciava um novo curso - Ciências Físicas e Biomoleculares. A paixão se consolidou quando conheceu a cidade de São Carlos e o “casamento” com o Instituto se concretizou em 2009, quando ingressou na graduação. Já em pleno doutorado, sua inclinação é fazer pesquisa científica no setor produtivo. Mesmo em período de pandemia, Raíssa planejou e organizou tudo para que em fevereiro de 2021 viajasse para os EUA, onde faria um doutorado-sanduiche na Universidade da Florida. Mas, não foi a pandemia que a impediu de ir.

“Todos os anos fazia exames de rotina para prevenção do câncer de mama, até porque em 2009, aos meus vinte anos, foram detectados alguns nódulos, mas sempre diagnosticados como benignos”, relata Raíssa. Com toda a preocupação relativa às suas atividades inerentes aos seus estudos e projetos, Raíssa não realizou o exame que deveria ter feito em 2019. Em 2020, em plena pandemia e tentando organizar sua viagem ao exterior, Raíssa fez novo exame e o diagnóstico caiu que nem uma bomba em sua vida. Estavam detectadas alterações nos nódulos em uma das mamas, e um deles, que era interno - portanto não palpável -, acusou câncer de mama. “Foi um grande choque quando recebi essa notícia, mas encarei com calma o que viria a seguir - a inevitável mastectomia (retirada de um seio) que fiz em maio deste ano. Embora eu tivesse uma vida saudável, com exercícios físicos regulares, alimentação equilibrada, etc., o certo é que, perante essa situação, comecei a tentar entender tudo o que estava acontecendo. Como sou da área de ciências biomoleculares, tenho uma visão mais cética sobre o câncer. Sou também muito observadora e tenho a tendência em perceber bem as coisas que acontecem, principalmente comigo mesma. Foi bom descobrir o problema logo no início, o que me deu forças para encarar o problema de frente. Sempre fui muito otimista perante a vida”, sublinha Raíssa, sorrindo, com um brilho intenso nos olhos.

Como o diagnóstico foi precoce, o tumor estava localizado, assim a cirurgia de Raíssa conseguiu preservar o músculo e o mamilo da mama operada, sendo que dessa forma a reconstrução foi possível. Contudo, Raíssa começou a ter outro tipo de problema, esse em termos psicológicos, e foi atendida e acompanhada pela psicóloga que se encontra ao serviço do Instituto, Bárbara Kolstock Monteiro. “É natural que, por uma razão ou outra - ou por muitas razões -, as mulheres sujeitas a uma mastectomia precisem de acompanhamento psicológico e eu não fugi a essa regra, por motivos muito particulares. O meu problema, após a cirurgia, foi não querer parar para me tratar de forma correta, pois, confesso, sou bastante ativa. As primeiras quatro sessões de quimioterapia - quimioterapia vermelha - provocam bastantes enjoos e dores no coro cabeludo por causa da queda gradual do cabelo. Gradualmente, também, comecei a perder palavras, a ter dificuldade em raciocinar, falta de memória e prostração. Uma mistura de sensações em que você percebe que a cabeça tem energia, mas o corpo não reage. A psicóloga Bárbara foi essencial para me convencer que eu deveria desacelerar e me concentrar no tratamento. Neste momento, estou na fase da chamada quimioterapia branca, cujos efeitos são unhas fracas, pele ressecada e mucosite na boca (já tratada), e dia 22 de outubro vai ser minha última sessão, de quimioterapia, mas o desafio não acabou ainda. Tenho indicação para radioterapia e 5 anos, no mínimo, de bloqueio hormonal”, pontua Raíssa, sempre sorrindo.

Com um humor invejável, Raíssa afirma que se sente muito bem com sua “carequinha”, até porque o cabelo já começou a crescer, salientando que esse é um momento em que não se pode pensar em vaidades e/ou preconceitos. Outra situação que preocupa as mulheres jovens com câncer é a possibilidade de o tratamento provocar infertilidade. “A possibilidade de a quimioterapia provocar infertilidade me preocupou muito também, mas hoje em dia existem algumas estratégias como o congelamento de óvulos e uso de medicamentos que podem preservar os ovários dos efeitos colaterais da “quimio”. Enfim, o que me deu forças para enfrentar esse tratamento doloroso foi nunca parar de fazer planos para o futuro - ir para a praia, para o laboratório, estar com os amigos e com a família”.

Nada é mais intenso do que a força de uma mulher que se conhece e se ama acima de tudo, como Raíssa, o que nos provoca uma imensa vontade de a abraçar com toda a força, principalmente quando ela diz que “Combater o câncer de mama é ter paciência, resiliência e Fé!”

(*) O autor é Jornalista profissional / Membro da GNS Press Association (Alemanha) / Correspondente internacional freelancer. MTB 66181/SP.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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