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domingo, 24 de janeiro de 2021
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Artigo Tati Zanon: Cientistas, desçam da torre de marfim!

05 Out 2017 - 10h18Por (*) Tati Zanon
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

Em duas oportunidades, utilizei esse espaço para tentar convencer vocês, queridos leitores, da importância dos investimentos em Ciência e Tecnologia como condição si ne qua non para o desenvolvimento e progresso do Brasil. A primeira delas foi no artigo "Alckmin contra o progresso", que, em razão das críticas recebidas, mereceu uma continuação em "Sobre o último artigo- esclarecimentos extremamente necessários"

Confesso, meus queridos, que as críticas recebidas me chatearam bastante. Não pessoalmente, é claro, pois, como sempre lhes digo, as críticas gentis e construtivas são- e sempre serão- bem-vindas! Mas, como pesquisadora, foi triste ver que a grande maioria dos comentários feitos pelos leitores ia de encontro com a posição defendida por mim.

Passados alguns meses das escritas desses artigos, a situação da C&T só piorou, como alguns de vocês devem saber. Cortes de mais de 50% no orçamento em C&T foram feitos, o que mobilizou uma pancada de cientistas, com destaque para a carta enviada a Michel Temer no último dia 29, de autoria de 23 ganhadores de prêmios Nobel, na qual eles afirmam que os cortes poderão comprometer o futuro do país e grupos de pesquisa brasileiros renomados internacionalmente também poderão ser afetados.

Mesmo ainda chateada com a falta de apoio da população à causa, minha opinião sobre o assunto mudou completamente após essa terça-feira. Não sobre a importância da C&T para o progresso do país, é claro, o que para mim continua sendo um fato indiscutível. Mas o que mudou foi a minha visão sobre essa falta de apoio graças a uma palestra de Fernando Reinach que tive a feliz oportunidade de assistir na terça em um evento organizado pela revista Scientific American Brasil, intitulado "O papel da divulgação científica para uma sociedade esclarecida e democrática".

Professor titular da USP aposentado há quase duas décadas, Reinach atualmente escreve colunas semanais para o Estadão (que, inclusive, recomendo a leitura). Em sua palestra no evento da Scientific American, ele fez uma declaração que causou alguns olhos arregalados na plateia que o ouvia. "Quando docente e pesquisador, eu tinha a visão de quem estava 'dentro da Ciência'. Publiquei muitos artigos, participei de pesquisas de alto impacto, com ótimos resultados. Fui um pesquisador extremamente atuante! Agora, fora da academia há muitos anos, tenho a visão de quem está 'fora da Ciência' e farei aqui uma afirmação que deixará muitos chocados: nós não existimos para a população".

Acredito que eu tenha alguns queridos leitores que estão ainda "dentro da Ciência", assim como eu. E não sei se depois de lerem esse artigo também mudarão sua postura e, principalmente, sua atitude em relação ao assunto. De acordo com Reinach, um dos maiores problemas da comunidade científica é que ela não possui autocrítica. E a falta de apoio dada a essa comunidade (bem como à própria Ciência) tem uma razão: o distanciamento que cientistas mantêm da sociedade.

Acredito que poucos leitores saibam que minhas pesquisas são justamente relacionadas à divulgação da ciência ao público geral, especialmente ao leigo. E, na pesquisa que realizei entre os anos de 2015 e 2016, esse foi um dos pontos fortes destacados por mim, que reproduzo uma parte aqui:

"Esse distanciamento, que separa especialistas em ciência e o público leigo, é ampliado em razão da imagem mística (porém, equivocada) que os segundos têm dos primeiros, colocando a Ciência e os cientistas numa torre de marfim, e alimentando o conceito errôneo de que o conhecimento científico é de entendimento e privilégio de poucos. A linguagem técnica que pesquisadores da ciência utilizam nos artigos científicos para que suas pesquisas sejam conhecidas e reconhecidas mundo afora é um dos elementos que colaboram para a construção de uma imagem elitista da Ciência, reforçando a falsa premissa de que ela não pode ser compreendida por qualquer pessoa que tenha interesse em assuntos e informações dessa natureza".

Por que temos tantas mobilizações e protestos quando o governo fala de cortes da saúde e na educação, mas não temos um cidadão sequer que sai às ruas para criticar o corte em C&T? No mesmo evento do qual participou Reinach, também esteve presente a ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, que fez a seguinte sugestão aos seus colegas pesquisadores: "Por que não podemos ir às escolas e dialogarmos com os professores e alunos, mostrando a eles, em uma linguagem didática e acessível, a importância da ciência, fazendo experimentos juntos, ministrando palestras, aproximando-se deles? Por que não podemos sair de nossos laboratórios e ir até essas pessoas? Será que, se fizéssemos isso, não teríamos mais apoio do público à nossa causa?".

Finalizo o artigo de hoje com essa colocação de Nader, incitando que os pesquisadores pensem por si próprios em ações para aproximar a sociedade dos cientistas. Tenho certeza absoluta que existe uma infinidade de ações, tão simples como as sugeridas por Nader, nas quais os cientistas podem se engajar para mudar esse cenário de distanciamento. E tenho ainda mais certeza de que, se isso realmente começar a ser feito, o apoio à C&T não precisará mais vir somente de renomados prêmios Nobel.

Foto: Divulgação

 

Queridos leitores pesquisadores, gostaria muito de ouvir a opinião de vocês sobre o artigo de hoje. Deixem seus comentários aqui ou em minha página no Facebook.

(*) A autora é jornalista e pesquisadora em Gestão do Conhecimento e Sistemas de Informação.

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