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sábado, 06 de março de 2021
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Artigo Rui Sintra: Haverão de sobreviver!

13 Jul 2016 - 06h05Por (*) Rui Sintra
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

A conquista da Eurocopa pela seleção de Portugal é caso para uma reflexão profunda em diversos níveis. Em primeiro lugar vem o foco. Qual era o foco dos "Tugas"? Não apenas ganhar jogos, mas, acima de tudo manterem-se "vivos" na competição, algo que conseguiram passo-a-passo, sem exibições de luxo, de forma por vezes tímida, mas com muita teimosia.

Em segundo lugar, a extrema humildade - mas não covardia - de um time que sabia das suas limitações técnicas e físicas em face de grupos poderosíssimos, como eram os casos da Alemanha, Inglaterra, Itália e França, entre outros: o mote era resistir, resistir, resistir, fechar a defesa e municiar Cristiano Ronaldo o quanto fosse possível: cansar o adversário, enervá-lo, desestabilizá-lo e utilizar isso em proveito próprio, tentando o gol.

Em terceiro lugar, o trabalho de um treinador (Fernando Santos), um técnico credenciado que, ao longo do tempo, já tinha habituado os portugueses a exibir, nos momentos mais dramáticos, uma ou duas cartas-surpresa que sempre costuma esconder na manga. Na final da Eurocopa, ele tirou uma dessas cartas da manga, mudou radicalmente a tática de jogo e saiu vencedor.

A seleção portuguesa deu uma notável lição, não só à prestigiada seleção francesa, como ao restante mundo do futebol, marcado aqui e ali por contornos pomposos, vaidosos, convencidos que são os melhores do mundo. Imprevisivelmente para todos, a união de todo o grupo em torno do objetivo final, após perder seu mais talentoso jogador e líder (Cristiano Ronaldo), vítima de lesão, foi o sinal de que a seleção portuguesa estava em condições de lutar de igual para igual com sua congênere adversária francesa, que desde o início do jogo se assumiu como a "toda poderosa", autodeclarando-se favorita e campeã antecipada - até já tinha o ônibus preparado, pintado com as cores de Campeão da UEFA Euro-2016.

Estou certo que os jogadores lusos nunca chorariam por causa de uma derrota, mas choraram - e merecidamente - com a alegria da vitória - e sabem por quê? Porque não foi preciso Fernando Santos mandá-los comer a grama para ganhar o jogo. O grupo não só comeu a grama do "Stade de France" de forma voluntária e espontânea, como se agigantou, atemorizando o adversário com seu comprometimento, com seu emocional equilibrado e sem vedetismos, com seu capitão instigando-os e apoiando-os fora das quatro linhas, como um grande capitão deve fazer.

Adaptando a escrita recente de minha colega, a jornalista lusa Mafalda Anjos: Estão vendo aquele canto esquecido da Europa, lá mesmo ao fundo, longe dos fiordes e dos canais, das cordilheiras e das planícies centrais? Aquele terreno entalado entre os espanhóis e um oceano gigante, lá atrás do sol posto? Dizem que é terra de gente desorganizada, metida à besta, cábula e cara-de-pau. Um povo de preguiçosos, fracos, deprimidos. Preguiçosos, subservientes, abatidos. Indolentes, sonolentos, cabisbaixos. Dizem que lhes falta muito, tanta coisa. Falta-lhes o método, o foco e a capacidade analítica. Falta-lhesperspectiva, visão estratégica, capacidade de desenhar planos de longo prazo. Dizem que são uns tristes: "Dégueulasses", portanto.

Sabem lá vocês, oh mundo! Ali há um povo nobre. Gente que não se resigna, que faz das fraquezas forças, que cai e se levanta, que renasce em cada momento. Gente que constrói um império a partir de um pedaço de terra, que se atira ao oceano sem saber o que esperar para lá das nuvens e da curva do horizonte. Gente que não se encolhe perante o tamanho do adversário, que se atira aos confrontos com a atitude de quem tem pouco a perder.

Gente que não desiste, que não se cala, que não baixa os braços. Ali vive o povo mais criativo do mundo. Um povo que vê borboletas nas traças, que desafia o razoável, tira coelhos da cartola, transforma as entranhas em poesia, o lixo em luxo e o quase nada em tanto. Que faz da tragédia glória. Ali vive um povo com o coração que tantas vezes quase sai do peito, que acolhe, que adota, que perdoa, que sorri, que acaricia. Que tanto grita quanto beija, que tanto luta quanto chora. Ali vive um povo que dribla o destino, que desafia a probabilidade, que contorna condenações e desalinha a ordem natural.

São lutadores e orgulhosos, como Ronaldo. São certeiros e inspirados, como Rui Patrício. São príncipes rebeldes, como Quaresma. São o herói improvável, como Éder. São cegamente otimistas, como Fernando Santos. São grandes gigantes e hoje a taça é nossa. Que venham os franceses ou alemães, as crises e as sanções, os desatinos e as confusões. Os brexits e as depressões.

E porquê? Porque você vê Cristiano Ronaldo, que com 12 anos teve de deixar a família, na Ilha da Madeira, por ser extremamente pobre, e foi tentar a sorte jogando futebol no Sporting Clube de Portugal. Você vê Ricardo Quaresma, que conseguiu sair de uma favela de Lisboa, para tentar sua sorte jogando futebol. Você vê José Fonte, que aos 27 anos trabalhou arduamente na terceira divisão da Inglaterra, longe do glamour e dos holofotes. E você vê Éder, o herói da final da Eurocopa-2016, que emigrou da Guiné-Bissau aos 3 anos, para acabar em um lar adotivo, porque seus pais pobres não podiam apoiá-lo. E começou a jogar futebol em Portugal.

São eles o povo que arranca o prefixo de impossível, e se ele teimar em não cair - o que certamente será muito injusto, uma idiotice pegada ou um azar dos diabos - haverão de sobreviver.

Eles não foram 11 jogando no gramado - foram 11 milhões gritando a uma só voz!!!

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