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domingo, 18 de abril de 2021
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Artigo Rui Sintra: A intervenção federal

23 Fev 2018 - 06h59Por (*) Rui Sintra
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

Era inevitável eu ter que falar da intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro, algo que entendo ser uma medida extrema essencialmente provocada por indivíduos inescrupulosos que, em primeira instância, deveriam ter sido imediatamente afastados de toda e qualquer função pública para sempre e quiçá presos - refiro-me aos responsáveis políticos que, ao longo dos anos, têm compactuado - direta ou indiretamente - com o tão proclamado crime organizado (ou, melhor dizendo, crime amparado).

Mas, será que esta intervenção vai resolver algo? Sim, embora ela tenha apenas condições de servir como paliativo durante algum tempo (até o próximo dia 31 de dezembro), já que não existe alternativa em curto prazo, sendo que rapidamente o crime tenderá a reocupar seu lugar de honra. O centro desta questão, que é muito abrangente, é essencialmente relacionado com a conjuntura do país - não só na área da segurança - que desde há largas décadas está entregue a um destino cruel, quando centenas de mãos criminosas decidiram saquear indiscriminadamente o erário público e as riquezas naturais, alimentar e disseminar a corrupção em todos os níveis, delapidar a infraestrutura pública e privada, ofertando o mínimo de educação possível aos seus cidadãos no intuito destes se transformarem e continuarem transformados em fantoches ao serviço de interesses escusos e secretos de quadrilhas de colarinho branco.

Antevendo os surrados simplismos de clichês que possam surgir na forma de comentários a este artigo - como já aconteceu em vezes anteriores e que não deixam de me divertir - emanados por crentes de certas religiões político-partidárias (como se não conhecêssemos seus estilos e de onde provêm), é bom lembrar que, por muito que nos doa, o Estado do Rio de Janeiro e sua Capital são a imagem perfeita do atraso político, econômico, social e cultural do próprio país. Como li em uma rede social, teria sido muito mais barato e eficaz fazer uma intervenção similar à do Rio de Janeiro no Congresso Nacional, em Brasília, porque talvez aí se conseguisse prender alguns dos verdadeiros patrões do crime. Contudo, me parece que o cerne da questão está, de fato, relacionado com questões sociais, até porque, como alguém escreveu - e bem - o estado brasileiro funciona como um entrave ao desenvolvimento econômico (pela sua voracidade arrecadadora e pelo paquidérmico peso de sua "burrocracia" estatal) e como um poderoso centralizador de concentração de renda (dando a preferência a gastos com minorias privilegiadas, marajás do serviço público e seus fiéis seguidores e escribas espalhados por todo o território nacional, bem como com elites devidamente organizadas, com a missão de mamar tanto nas tetas do erário público, quanto mamar nas nossas próprias tetas - contribuintes). Por outro lado, a muitos deputados e senadores não convêm, de forma alguma, mexer ou permitir que se mexa num código penal há muito obsoleto, que eternamente privilegia os criminosos e condena as forças de segurança e os cidadãos de bem, que protege os corruptos e os restantes criminosos de colarinho branco, que incentiva a fragilização dos mais pobres, encarcerando muitos destes em presídios medievais durante largo período de tempo, muitas vezes sem o devido julgamento. É bom refletir que as maiores vítimas da criminalidade não são os mais ricos (que têm recursos para se defender), mas sim os trabalhadores das classes mais frágeis. Você, estimado leitor, sabe quanto custa um advogado para defender uma causa criminal? Sabe quanto custa um "habeas corpus"? Tem noção de quanto custa um recurso? Melhor não saber, mesmo, porque senão você vai ficar escandalizado e chegar à conclusão que conseguir justiça não é para todos. E são essas pessoas que, no alto de seus pedestais oferecido pelo povo, em suas poltronas, delapidam o país, gozam das exclusivas e inaceitáveis benesses - como o foro privilegiado -, que exibem a impunidade em relação aos crimes de responsabilidade fiscal e que têm a total autonomia para legislarem em causa própria.

A intervenção federal no Rio de Janeiro, me parece ser, neste momento, a única medida que deveria ter sido tomada pelo governo (fosse ele qual fosse), dada a gravidade da situação, independendo da posição contra tomada pelos deputados e senadores da oposição - aliás, esperada, em virtude da falta de opções práticas já identificadas ao longo do tempo -, que se escudam em retóricas políticas histéricas e muitas vezes contraditórias, enquanto mulheres, crianças e policiais são assassinados todos os dias. E essa intervenção não nasce solteira: ela nasce umbilicalmente ligada à incúria, irresponsabilidade, incompetência, populismo e corrupção desenfreada dos gestores públicos locais. Dos sete governadores eleitos no Rio de Janeiro, desde 1982, cinco estão atualmente na mira da Justiça - Moreira Franco (PMDB), Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho (ambos do PR), Sergio Cabral Filho e Luiz Fernando Pezão (PMDB), sendo que os restantes dois são Leonel Brizola (PDT) e Marcello Alencar (PSDB), sem pendências judiciais, que faleceram em 2004 e 2014, respectivamente. Estarão as forças armadas preparadas para intervirem na área urbana do Rio de Janeiro, principalmente nas favelas? Acho que sim, até porque quando estiveram em missão no Haiti as condições eram de alguma forma similares. Terão elas a habilidade das forças policiais? Creio que não, mas elas reforçarão - e muito - a atuação das delapidadas polícias, quem sabe dando um respaldo que nunca tiveram. Vai-se gastar muito dinheiro com esta intervenção? É claro que vai, mas esse gasto é consequência de uma medida extrema provocada e alimentada pelos políticos locais, que saquearam o Estado por décadas até o último centavo, supostamente com conexões com o crime organizado. Por último, será que a população confia nas suas forças armadas? Estou bastante convicto que sim: elas estão construindo pontes, abrindo e asfaltando estradas, montando hospitais de campanha e cuidando de outras infraestruturas em inúmeros pontos do território nacional, vigiando fronteiras, contribuindo na distribuição de águas e na construção de saneamento básico, beneficiando populações inteiras e tomando para si uma responsabilidade que deveria ser do poder público: portanto, aqui sim, estão fazendo algo que não é sua missão, certo? E, até provarem o contrário, no meu ponto de vista, as forças armadas do Brasil são, atualmente, um pilar fortíssimo da Democracia, um orgulho para a Nação e para qualquer brasileiro que se preze de sua origem e identidade. Tudo quanto for afirmado em contrário, tentando desprestigiar, denegrir e/ou correlacionar a nova imagem das forças armadas ao fantasma da ditadura militar do passado, não passa de pura demência aliada a um saudosismo "revolucionário" ridículo e desconcertante.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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