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sexta, 23 de abril de 2021
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Artigo Antonio Fais: O Bom Diabo

24 Jan 2018 - 09h53Por (*) Antonio Fais
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

Era temente a Deus. Tanto que, apesar de ganhar muito pouco, ao passar em frente à Capela do Divino deixava uma moeda. Também deixava sempre uma moeda de igual valor em outra capela muito simples (diziam ter sido erguida ao Diabo).

A vida era dura, a família pobre. O quase nada que ganhava ficava com os pais, mas as duas moedas diárias eram sagradas!

Isso durou dos onze, de quando começou a trabalhar, aos vinte e um anos, quando resolveu sair de casa para ganhar a vida, fazer o mundo e juntar fortuna.

Com a permissão dos pais, vendeu seus únicos bens, uma gaiola e um canário, e foi, não sem antes depositar as sagradas moedas em ambas as capelas. E seguiu viagem, sem olhar para trás!

Os dias que se seguiram não foram fáceis. O dinheiro era pouco e tudo custava: estadia, locomoção, refeição...

Passaram-se os dias e o dinheiro acabou-se e, em uma noite de muita fome, pediu em uma pensão algo que comer. Honesto, adiantou que não tinha dinheiro, mas tinha a certeza de um dia seria rico, "muito rico" e voltaria para pagar o que lhe dessem... "Com juros e correção". O dono da casa sabia que a fome faz as pessoas sonharem demais, era avaro, mas não queria carregar consigo tal culpa. Deu-lhe um prato de arroz com feijão e dois ovos fritos.

Ao sair, agradecido, apertava a mão do homem e dizia: "Eu voltarei para lhe pagar. Voltarei... com juros e correção!".

Muitos anos se passaram. Rico, muito rico, o rapaz passa de novo pela pequena cidade: a pensão, os ovos, as fomes já esquecidas... Vinte anos.

Talvez nem mais existissem o homem, sua pensão, as galinhas, os pintos, os ovos... Resolveu entrar e conferir.

O homem estava lá. Tinha espantosamente a mesma cara, no mesmo lugar, atrás do caixa, como se de lá nunca houvesse saído durante vinte anos e passasse a vida a esperá-lo. "Nem vai mais se lembrar de mim! Terá um susto ao ver a quantia que vou lhe dar!", pensou satisfeito, já mentalmente apartando, o que seria para o pobre homem uma fortuna.

-    O Senhor se lembra de mim? - Perguntou com um largo sorriso.

O pensioneiro lentamente contemplou o visitante, pensou, pensou e disse:

-    Você é aquele jovem rapaz que há muitos anos passou por aqui e ao qual eu servi dois ovos.

-    Puxa! O senhor tem uma boa memória! Vim lhe pagar os dois ovos. Mas vou lhe dar muito mais...

Mas, antes que concluísse, foi apartado pelo senhor:

Eu já fiz suas contas! Você comeu dois ovos - fazendo com os dedos o número dois - Supondo, para ser justo, que fossem ali um frango e uma galinha, essa galinha em sessenta dias começaria botar e daria uns bons quinhentos ovos durante sua vida; que metade fossem também galinhas - duzentos e cinquenta; que poriam mais quinhentos ovos cada e assim por diante...

Sem se cansar, seguia a explicar sua lógica e depois de muito calcular, chegou a um número tão grande, mas tão grande que não caberia aqui! 

Discutiram. E, como não houvesse acordo, o caso foi ao tribunal da cidade. Um homem simples, amarrotado e coxo, que se dizia advogado faria sua defesa - era o único que tinha!

Na hora do julgamento, estavam todos lá: réu, juiz, promotor, vítima, público, curiosos às pencas, menos o advogado.

-    Onde está seu advogado? Tenho mais o que fazer. - Pergunta o juiz, impaciente.

O rapaz, aflito e inconformado, dava com os ombros, pois deste nem lhe sabia o nome.

-     Se não aparecer em cinco minutos, darei a causa decidida por falta de defesa. - Ameaçava o Juiz.

O Meritíssimo já estava por proferir sua sentença quando chega o advogado esbaforido.

-    Nobre advogado, o que o senhor fez - diz o juiz - é uma falta de respeito para comigo, para com o seu cliente e para com todos os presentes.

-    Data Venia, Meritíssimo. Não pude realmente chegar antes - Argumentou o advogado, como quem tivesse um justo motivo.

-     Se o senhor tiver uma boa justificativa para tamanho atraso, deixo-lhe fazer sua exposição.

-    Bem, Meritíssimo... Eu estava cozinhando feijão... para plantar.

Diante da gargalhada geral, contendo-se para não rir alto também, o juiz disse:

-    E onde o senhor viu feijão cozido dar vagem?

-    E por que estamos cá a discutir se ovo frito dá pinto? - Conclui o advogado, calando a plateia.

À saída, o réu procurou o advogado:

-    O senhor foi genial. Quanto lhe devo? Peça quanto quiser!

-    Nada! - Responde o defensor.

-    Como nada? Faço questão de lhe pagar. - Insiste.

-    Lembra-se de quando jovem depositava diariamente aquela moedinha a Deus?

-    Sei - Respondeu, lembrando-se de seus caminhos de criança, canários, gaiolas, moedas, capelas, a saída da cidade, as dificuldades e os caminhos até fazer fortuna.

Olha para o advogado que lhe sorri, como um pai a um filho querido. E conclui:

Já me pagou quando depositava outra moeda a mim também.

Foto: DivulgaçãoO AUTOR 

Antonio Fais, graduado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de São Carlos. Na década de 1980, criou e implantou os primeiros cursos de Informática do SENAC-SP. Escritor, graduou-se também em Filosofia, especializando-se em linguagem e aprendizagem. Realiza formações para professores e empresas em comunicação, linguagem, literatura e escrita criativa. 

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