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segunda, 12 de abril de 2021
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Artigo Antonio Fais: A Navalha do Lopes

16 Jan 2018 - 09h22Por (*) Antonio Fais
Foto: Divulgação - Foto: Divulgação -

O Lopes foi meu barbeiro durante anos. Era daqueles barbeiros antigos. Sabe? Daqueles que ainda faziam a barba. E com navalha! Navalha mesmo, de corte afiado.

Poucas vezes eu fiz barba com ele. Sou da geração que faz barba em casa, ainda mais com os novos produtos que deslizam bem.

O Alzheimer lhe impediu continuar na profissão que exerceu por mais de 70 anos.

Quando eu o conheci, ele já era velho. Tinha filhos mais velhos que eu. Tinha também filhos mais novos que os meus. Casara cinco vezes. Tentamos fazer um dia uma contagem de seus filhos. Passavam de vinte.

Lopes era engraçado, prático e inteligente. De família antiga, simples e numerosa, sabendo que não poderia estudar para ter uma profissão que lhe assegurasse renda, trabalhou cedo em um bom salão como engraxate e lá aprendeu a profissão que permitiu que os filhos estudassem. Contava com orgulho que todos tinham feito faculdade e estavam bem.

Em seu salão, além das Playboys, Quatro Rodas e Placar tradicionais, tinha também muitos livros, sempre disponíveis para clientes levarem para casa.

"E eles devolvem, Lopes?" - perguntei um dia. "Tanto faz. Livro precisa ser lido. Livro novo é livro ruim" - respondeu.

Eu havia estabelecido um trato com ele: no começo do ano, pagava pelo ano todo, como se fosse cortar uma vez por mês, mas poderia cortar quantas vezes quisesse. Ia pelo menos duas vezes ao mês ou, ocasionalmente, antes de um casamento ou evento especial, passava para ele dar uma acertada no cabelo.

O trato era bom, a conversa era boa. Como seu preço era acima da média dos outros salões, não vivia lotado e não tinha hora marcada, "chegou, cortou", como ele mesmo dizia.

Lopes era pródigo em bons conselhos e tinha uma habilidade impar para analisar problemas. Tanto faz se o caso fosse com filhos, mulher ou mesmo financeiros.

Raramente ele apontava uma solução, mas sempre tinha um causo exemplar para contar.

Seu salão ficava em sua casa e tinha uma ampla garagem. Ao sair era comum encontrarmos o carro lavado por um dos filhos do Lopes. Eles não cobravam o serviço, mas era inevitável uma bela gorjeta aos garotos.

Um dia lhe perguntei: "Lopes, você não tem carro?".

"Pra quê? Hoje trabalho em casa, mas sempre gostei de ir a pé para fazer exercícios. Nunca nem quis ter carteira".

Insisti: "E no caso de uma urgência? Uma doença?".

"Tenho um motorista de táxi que me atende. Ele me cobra barato. Uso quando volto carregado das compras ou se houver uma emergência. Não gasto com combustível, seguro, estacionamento, IPVA, multa, manutenção... É uma grande economia".

E, enquanto eu fazia mentalmente as contas, ele completou rindo: "Mas tenho oito casas de aluguel com o dinheiro que não perdi nos carros e no jogo. Perdi algum com as mulheres, mas aí é algo que vale a pena".

Só soube da morte do Lopes meses depois, quando seu filho me ligou pedindo para passar por lá. Fui e ele me contou dos últimos anos do Lopes, sem se lembrar de mais nada. Dentre seus pertences havia um envelope com uma navalha e um bilhete pedindo que me fosse entregue como lembrança.

Como não vou me arriscar a fazer a barba com ela, deixo em um lugar visível que diariamente me lembra da sabedoria do Lopes.

Sobre o autor

Foto: DivulgaçãoAntonio Fais, graduado em Ciências da Computação pela Universidade Federal de São Carlos. Na década de 1980, criou e implantou os primeiros cursos de Informática do SENAC-SP. Escritor, graduou-se também em Filosofia, especializando-se em linguagem e aprendizagem. Realiza formações para professores e empresas em comunicação, linguagem, literatura e escrita criativa.

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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