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domingo, 20 de setembro de 2020
Memória São-carlense

Alguns tipos populares da cidade

31 Ago 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Alguns tipos populares da cidade - Crédito: Arquivo Pessoal Crédito: Arquivo Pessoal

Encerrando agosto, o mês do folclore vale lembrar alguns clássicos tipos populares de São Carlos, personagens cuja memória acompanhou o crescimento da cidade. Lendários habitantes da paisagem urbana, que a seu tempo despertaram surpresa, curiosidade e carinho nos moradores tradicionais.

Os personagens da história real não escrita tornam possível medir a pulsação da cidade que às vezes parece igual a tantas outras do mesmo tamanho. Mas só parece. Na essência é diferente. O povo de cada uma delas é singular e seus tipos são únicos, como ensinam as figuras que ficaram guardadas na lembrança de muitos são-carlenses.

Os mais antigos se lembram de nomes lendários como Zé da Catarina, Catarina Bum, Ciciolaio, Gema, Santo Bilheteiro, Paulino, Nhô Braz, Saia Balão. Mais recentemente de Biro-Biro, João Babão e outros que, mesmo sem saber, deram graça e originalidade a uma etapa da história local.

O ambiente urbano é o palco, a ribalta onde muitos conseguiram encarnar com seu modo de vida, tantas vezes exótico, noutras pitoresco, o drama e a comédia de um tempo. Gente que sem se dar conta desafiou o tédio e pelo encanto ganhou o carinho dos demais moradores.

A cidade de Ronald Golias, que levou a TV alguns personagens inspirados em figuras locais, ganha ares de “praça da alegria” quando nos damos conta de quantos foram os tipos populares mais marcantes.

No livro “Aspectos do folclore são-carlense”, de 1982, ilustrado por José Gatti, a professora Ligia Temple Garcia Gatti enumera vários deles, notando que à medida que os anos passam, mudam também aqueles que caracterizam a cidade nos seus costumes e hábitos pitorescos. 

O tema também foi mote de um trabalho do Estúdio Lucidi - Escola de desenho, que resultou no livro intitulado "Histórias curiosas de São Carlos", lançado em 2016 em parceria com a Fundação Pró Memória ? um importante registro das histórias e causos contados pelos habitantes mais antigos de diversos bairros da cidade.

Manoel Pedreiro talvez seja o mais antigo personagem típico de São Carlos. Chamado Manoel Afonso da Rocha, foi chefe da “polícia secreta local” nos primórdios da história. Negro, trazia uma caixinha de metal de forma triangular onde guardava fotografias, gostava de andar armado, carregava uma espingarda e sua grande façanha foi ter participado da captura da temível “Quadrilha Mangano”.

Os tipos folclóricos mais famosos de São Carlos foram mesmo a Catarina e Zé da Catarina, que viveram juntos por muito tempo. Durante anos ambos circularam pelas ruas se dizendo mascates, vendendo qualquer coisa, “inclusive mandioca fresca e jabuticabas bitelonas”. De repente Zé arranjou um cavaquinho e começou a tocar e cantar “para ganhar a vida”. “Abre a janela, Maria, que é dia” e “O Jardineira porque estás tão triste” eram suas preferidas. Gostava de “joias”, anéis e alianças de latão, ostentando no peito uma medalha com a inscrição: “Honra ao Mérito”, que lhe foi colocada numa brincadeira de estudantes.

Catarina, sua amada, sobreviveu a ele (falecido nos anos 50) e era chamada de Catarina Bum ao correr atrás das crianças e ser saudada por elas com a frase: “Catarina Bum, cai na água e faz tchibum!”. Tinha uma cachorrinha chamada Boneca e morava nas proximidades da praça Itália, na Vila Izabel e nos anos 1960 circulava pelo centro e vários bairros da cidade. Pouco se sabia dela, que dizia que o pai fora rico, perdeu a fortuna e se matou. Catarina viveu um tempo no asilo e faleceu por volta de 1975.

Um recuo no tempo encontrava Gema, mulher de idade indefinível que subia e descia a avenida falando sozinha e catando coisas pelo chão. Costumava descansar nos bancos do Largo de São Benedito enquanto o povo imaginava histórias a seu respeito.

Nho Braz foi um tipo que se notabilizou como um dos maiores foliões dos carnavais antigos, enquanto Ciciolaio, um ex-militar italiano ganhava a simpatia do povo ao fazer desenhos na calçada distraindo as crianças nas primeiras décadas do século 20. Por muitos anos se usou a expressão “no tempo do Ciciolaio” para dizer de algo muito velho. Fato é que entre seus amigos estava o padre José Teixeira da Silva, o “PadreTeixeira”.

Banana Cacau, homem muito magro, também italiano e presumivelmente chamado Piero, dava bananas para quem o importunasse nas esquinas do centro da cidade.

Paulino Encanador, outro tipo de almanaque, morava na rua 13 de Maio perto da linha do trem, mas se tornou andarilho depois de uma tragédia: numa briga,levou facadas da esposa, que o abandonou fugindo com os filhos. Paulino ficou demente e andava pelas ruas arrastando linguiça e seguido por uma matilha de cães. Foi célebre sua presença com os cachorros no cortejo de 1957 em que os restos mortais dos heróis de1932 foram transladados para a Praça dos Voluntários.

De repente, Paulino desapareceu, no mesmo tempo em que surgiu o Fantasma do Trevo: ele próprio, vestido de camisolão branco, na época em que dormia junto aos túmulos no cemitério.

Levaram-no para um hospital onde pudesse se tratar, quando regressou estava curado,voltou a trabalhar, mas teve uma recaída. Voltaram as maluquices, que eram alternadas com fases de melhoras, quando limpava os ônibus do Expresso Brasileiro. Voltou a ser internado e não se soube mais notícias dele.

Com o passar do tempo, os tipos populares foram ficando escassos. Bemvindo Girro, com seu 1,28m, deixou a Praça Coronel Salles onde por anos protagonizou a lendária “revoada dos pombos” que obedeciam a seu assobio.

Nos anos 1970 havia o bordão do moço parecido com o humorista Mussum, que vendia salgadinhos nos dias de desfiles na avenida: “Biscoito, salgado, pururuca, pipoca – Vamos comer as coisas”.Nos anos seguintes, centro comercial era certeza encontrar Biro Biro pronto para entrar em campo com o uniforme do Timão e João, a quem se pespegou a alcunha de Babão, que frequentava missa na Catedral e pedia uns trocados portando um cartaz, como no cinema mudo, na porta do mercado.

Eu me recordo também da mulher que era vista sempre nas cercanias do Instituto de Educação quando vim morar em São Carlos nos anos. Era rechonchuda, usava muitas saias de uma só vez, com armações curtas que ficavam armadas, parecendo um balão. Tinha o rosto muito pintado, laço de fita na cabeça, meias compridas e coloridas e sapatos de saltinho. Às vezes trocava a fita por um gorro, era inofensiva, mas despertava curiosidade e, para variar, o povo inventava mil histórias sobre ela.

Há aquela outra classe de personagens que, pela força do estilo, deixam suas marcas, como a carnavalesca Odette dos Santos, que imortalizou um tipo bastante peculiar. Considerada a dama do carnaval da cidade, Odette fundou a primeira escola de samba são-carlense e se destacou em desfiles carnavalescos. Eventos que tiveram outro tipo simbólico, José de Almeida, o Zezinho Mariposa, um dos precursores na produção de fantasias de carnaval em São Carlos e que entre os anos de 1960 e 1980 se notabilizou como extraordinário cozinheiro, que na função fez parte das delegações da cidade em edições dos Jogos Regionais e dos Jogos Abertos do Interior.

Quem seriam os tipos populares de São Carlos nos dias de hoje? Arrisco a dizer que entre eles está o palhaço Pirilampo, o ex-ator natural de Sergipe, nascido Josafá Trindade, que exibe seu talento animando as fachadas de lojas no centro da cidade.

Nunca podemos dizer que as figuras folclóricas desapareceram por completo. Entre um cafezinho e outro, elas podem surgir diante do olhar de quem observa o cotidiano das esquinas da cidade. De repente ali, não muito longe de sua casa, você pode descobrir mais que a cara do povo, mas a sua alma. E não apenas isso: terá encontrado na rotina de um dia qualquer, o meio mais simples de conhecer realidades que não se veem.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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