quinta, 07 de julho de 2022
Artigo Rui Sintra

10 de junho: Casa de Portugal de São Carlos comemora o “Dia de Portugal” lembrando o centenário do nascimento de José Saramago

10 Jun 2022 - 06h00Por Redação
10 de junho: Casa de Portugal de São Carlos comemora o “Dia de Portugal” lembrando o centenário do nascimento de José Saramago -

Hoje, 10 de junho, a Comunidade Portuguesa espalhada pelo mundo comemora o “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades”: é feriado nacional na terrinha! Como é da praxe, muitos serão os festejos alusivos a esta comemoração, com folclore lusitano, comidas e bebidas típicas de Portugal e algumas sessões solenes promovidas pelas associações e Casas de Portugal espalhadas pelo mundo, tudo com alguma moderação já que o Covid-19 parece não querer dar tréguas. Por isso, aqui, na nossa cidade, a Casa de Portugal de São Carlos optou por assinalar a efeméride de forma virtual, que ocorrerá logo mais às 21h00, aberta a todos os interessados, e cujo foco será lembrar o centenário do nascimento de José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura em 1998, um ex-libris da literatura e da difusão da Língua Portuguesa Contemporânea, que se assinalará no próximo mês de novembro. Neste evento remoto participarão o historiador e docente do Departamento de Educação da UFSCar, Prof. Dr. Amarílio Ferreira Junior, que dissertará sobre o tema “Saramago entre a literatura e a política”, e o Presidente do Conselho Deliberativo da Casa de Portugal de São Carlos, o Dr. Antonio Sasso Garcia Filho, advogado, que explanará o tema “Saramago e o Brasil - Impactos”. Como aperitivo para este debate de ideias sobre um dos maiores vultos da literatura portuguesa contemporânea, cabe aqui enfatizar o que cada um dos debatedores deste evento entendeu destacar de sua participação logo à noite.

Para o Prof.Amarílio Ferreira Junior, a dimensão política do escritor José Saramago ficou plasmada no conjunto da sua própria obra literária, e nem tanto pelos cargos públicos que ocupou. Pois, em 1989, foi eleito presidente da Assembleia Municipal de Lisboa, espécie de Parlamento composto de 106 cadeiras. Era filiado ao Partido Comunista Português desde 1969 e professava de forma visceral uma concepção de mundo marxista e ateia. Os romances de Saramago foram perpassados pela negação da negação tanto em relação ao capitalismo como ao cristianismo ocidental, particularmente o católico apostólico romano. Em conversa preliminar que mantive com Amarílio Ferreira Junior, o historiador coentou o seguinte: “Fruto cultural da Civilização Ocidental – capitalista e cristã –, Saramago teve na língua portuguesa a sua “pátria”, tal como nos ensinou Fernando Pessoa. O Nobel de Literatura de 1998, usou a tramela derivada do galego como uma cortilha para esquartejar o corpo cultural da devida civilização que nos legou a epopeia de Camões. Expôs as suas vísceras, plasmadas de cristianismo e de capitalismo, por meio de uma crítica radical, sem qualquer concessão. A relação orgânica entre capitalismo e cristianismo marcou irremediavelmente o mundo ocidental desde 1789. Dali brotaram duas tendências que se tornaram o pano de fundo do proscênio no qual Saramago escreveu, por exemplo, os romances “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1991) e “Caim” (2009). Entranhado nas brenhas profundas do “ulterior debate” travado entre Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), Saramago nunca se fiou na ideia de que a “ética protestante” teria engendrado o capitalismo. Para o ilustre morador de Lanzarote, o capitalismo nasceu mesmo com base no trabalho humano explorado pelo próprio homem que se tornou “semelhante a um deus”, no mesmo sentido daquele utilizado por Marx tanto nos seus escritos juvenis como na obra da maturidade: “O Capital” (1867). Nesses dois romances, Saramago explicita, a um só tempo, a unidade e a luta dos contrários: (A) unidade materializada na Civilização Ocidental, que lhe concedeu, historicamente, a língua neolatina que floresceu na Península Ibérica da época romana e que foi usada por ele como acúmen dilacerante; e (B) luta dos contrários porque tomou partido entre dois polos antagônicos e excludentes: ateísmo/marxismo versus cristianismo/capitalismo. Quando auferido com a láurea literária em Estocolmo (1998), o jornal “L’Osservatore Romano”, órgão oficial da Santa Sé, assim se posicionou: “um comunista com visão antirreligiosa do mundo”. Tempos depois, o jornal “O Estado de S. Paulo” não ficou nada a dever ao periódico do Vaticano. Em 2009, ano da publicação de “Caim”, o título da matéria no seu Caderno 2 era uma espécie de sentença condenatória: “Saramago ataca Deus outra vez”. A sua morte, em 2010, não só deixou a literatura mundial mais inópia, mas também a humanidade perdeu “um homem bom, uma excelente pessoa e um escritor magnífico”, nas palavras de despedida de Pilar del Rio, sua amada espanhola”.

Num sentido diferente, Antonio Sasso Garcia Filho, também conversa que comigo manteve, defende que o ser humano, pela sua própria natureza, é um ente contraditório. Um paradoxo. Uma contradição. Ou, como dizia Raul Seixas, uma “metamorfose ambulante”. Para Antonio Sasso, segundo a voz corrente, evoluir quando se muda de opinião é sinal de inteligência. “Pois José Saramago foi exatamente um contra-exemplo de tudo quanto dito acima: ateu, socialista convicto, defensor de causas eternas como os direitos humanos, a propagação da cultura e difusão da Língua Portuguesa, Saramago parece que nunca mudou sua visão de mundo, conjugando as mesmas crenças, os mesmos valores e os mesmos princípios até o fim de sua existência. E ainda assim, jamais deixou de ser o homem culto, perspicaz, às vezes até mordaz, dono de uma inteligência arguta e lancinante, ao qual todos nos acostumamos. Certa vez, disse numa entrevista à apresentadora brasileira Marília “Gabi” Gabriela” que brasileiros e portugueses eram povos realmente muito parecidos e que as diferenças decorriam basicamente de preconceito ou racismo. A apresentadora solicitou um exemplo ao qual ele respondeu: “os brasileiros são vistos em Portugal como um tipo de Zé Carioca”, ou seja, alguém que vive a vida descompromissadamente. Pois bem: um dos aspectos mais marcantes da literatura e da obra produzidas por José Saramago consiste exatamente na vivacidade de sua comunicação (que considerava muito mais importante do que a correção ortográfica da língua escrita). Ora, a não observância rígida de regras ortográficas e estilos literários, são pontos muito mais afeitos à personalidade brasileira, que portuguesa. Talvez, mercê de sua forma de enfocar a linguagem escrita, o grande escritor tivesse mais em comum com o Brasil e com os brasileiros, do que pudesse supor num primeiro momento. Esta característica provocou impactos no Brasil e nos leitores brasileiros? Aguardemos para ver o desfecho na apresentação protagonizada pela “Casa de Portugal de São Carlos”, hoje, no evento comemorativo ao 10 de junho de 2022 e depois tomemos, cada qual, a sua própria conclusão”.

Haja visto que a Casa de Portugal trocou as comidas e bebidas, o fado e o folclore por este evento que certamente despertará a atenção de muitas pessoas, principalmente aquelas que estão mais engajadas com a cultura e a política. Para quem estiver interessado em assistir e/ou participar, basta acessar o link https://us02web.zoom.us/j/82487798914 pois estarei lá para dar as boas-vindas, já que irei moderar o debate.

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