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terça, 20 de outubro de 2020
Saúde

Nova esperança para o tratamento da Doença de Chagas

Concluídos novos estudos do Grupo de Química Medicinal da USP São Carlos com testes em camundongos

20 Jun 2018 - 07h45Por Redação
Novo composto estudado (Neq) levou a 100% de sobrevivência dos animais quando usado em combinação com o benzonidazol (Bz) de ensaio em fase aguda da doença de Chagas (barra laranja). Neste estudo as dosagens usadas foram 10 vezes menores do que a usualmen - Crédito: DivulgaçãoNovo composto estudado (Neq) levou a 100% de sobrevivência dos animais quando usado em combinação com o benzonidazol (Bz) de ensaio em fase aguda da doença de Chagas (barra laranja). Neste estudo as dosagens usadas foram 10 vezes menores do que a usualmen - Crédito: Divulgação

Uma nova alternativa terapêutica para o tratamento da doença de Chagas (causada pelo parasito Trypanosoma cruzi) começa a ser desenhada no Grupo de Química Medicinal do Instituto de Química de São Carlos, da Universidade de São Paulo (Nequimed/IQSC/USP). Vários desafios para uma nova geração de fármacos acabam de ser vencidos, com a descoberta de novas moléculas capazes de tratar camundongos infectados com o parasito T. cruzi.

Três novos compostos químicos associados ao fármaco de referência - benzonidazol - foram estudados, tendo-se obtido uma taxa de sobrevivência dos animais de entre 60 e 100%, muito superior aos 10 % observados quando esse mesmo fármaco foi administrado de forma isolada.

Uma das esperanças para o tratamento da Doença de Chagas ruiu recentemente quando o posaconazol - um fármaco empregado para o tratamento de doenças causadas por fungos -, também comercializado no Brasil, foi excluído das fases clínicas em seres humanos por falta de eficácia em pacientes com a doença. Desta forma, pesquisadores do IQSC/USP começaram a testar uma combinação de novos compostos com o único fármaco capaz de eliminar as formas infectivas do Trypanosoma cruzi - o benzonidazol. Os ensaios com animais envolveram uma dose terapêutica do benzonidazol menor que aquela empregada no tratamento da doença, combinado com os novos compostos desenvolvidos pelos pesquisadores, sem efeitos colaterais perceptíveis.

COMO FOI FEITA A PESQUISA E O QUE RESTA FAZER

Empregando métodos computacionais para investigar grandes coleções de dados, o grupo identificou algumas moléculas capazes de inibir a cruzaína - uma cisteíno protease (enzima que destrói as proteínas do hospedeiro) -, crucial para o ciclo de vida do parasito que infecta o hospedeiro. Mapeando o espaço químico de pequenas moléculas e estudando as interações das melhores delas dentre milhões de moléculas candidatas, o grupo selecionou algumas e testou a hipótese de que a inibição da enzima cruzaína poderia levar à morte do parasito.

A partir de ensaios in vitro, usando o próprio parasito como alvo, foi observado que as substâncias levavam a morte das formas amastigotas (forma do parasito encontrada dentro da célula do hospedeiro) que infectam o coração de seres humanos. Além disto, os compostos químicos eram seletivos e levaram a morte dos parasitos sem afetar as células de mamíferos. Estes resultados foram contundentes para iniciar os estudos em camundongos, cujas fases iniciais com os compostos isolados foram alentadores, tendo um camundongo fêmea sobrevivido aos ensaios durante vários meses, não tendo morrido da infecção.

Dentre as diferentes estratégias em química medicinal, a terapia combinada que usa mais de um medicamento para tratar uma doença, poderia ser uma boa alternativa. Os ensaios in vitro mostraram-se promissores para a combinação dos novos compostos com o benzonidazol. Para observar a eficácia terapêutica, uma dosagem desse fármaco, dez vezes menor que aquela administrada usualmente, foi escolhida para os estudos nos animais.

Os resultados alcançados com o tratamento combinado levaram a confirmação da prova de conceito inicial, tendo-se chegado até 100% dos animais vivos. Os animais permaneceram vivos mesmo após meses da administração da combinação dos compostos descobertos no NEQUIMED/IQSC/USP com o benzonidazol. Estes resultados são especialmente animadores, devido ao fato de reduzir drasticamente possíveis efeitos colaterais do fármaco, uma vez que ele é administrado em baixa dosagem.

No tratamento convencional, esses efeitos colaterais podem ser tão fortes que, algumas vezes, pacientes com a Doença de Chagas preferem abandonar o tratamento a ter que continuá-lo. A partir da prova de conceito in vivo estabelecida e confirmada para três classes de novas entidades químicas bioativas, o grupo pretende agora aplicar a gênese planejada de fármacos em estudos pré-clínicos avançados. Em caso de sucesso, essas novas entidades químicas bioativas estarão então qualificadas para evoluir às fases clínicas, esperando-se que sejam iniciados os estudos em humanos em um futuro muito próximo.

A Doença de Chagas está disseminada em todo mundo, com cerca 6-7 milhões de pessoas infectadas (cerca de 2 milhões só no Brasil). Trata-se de uma doença tropical negligenciada que não tem tratamento adequado, especialmente em sua fase crônica. Devido à dificuldade na identificação da Doença de Chagas em sua fase inicial, os pacientes normalmente são diagnosticados na fase crônica, especialmente quando problemas de coração são observados.

Embora haja controle relativamente eficiente de sua endemia no Brasil, assim como em vários outros países da América Latina, periodicamente são observados episódios de epidemia (como, por exemplo, o consumo de açaí in natura no Pará, ou o caldo de cana em Santa Catarina).

Desta forma, o estudo de novas alternativas para o tratamento da Doença de Chagas apresenta uma grande relevância para o país e, principalmente, como esperança de tratamento futuro de das pessoas que sofrem dessa doença milenar. (Nequimed/IQSC/USP)

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