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quarta, 28 de outubro de 2020
Estudo

Docente da UFSCar realiza pesquisa inédita no Fundo Milton Santos

07 Jul 2018 - 08h55Por Redação
Docente da UFSCar realiza pesquisa inédita no Fundo Milton Santos - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Os processos de criação e de escrita do geógrafo Milton Santos estão sendo estudados pela professora Luciana Salazar Salgado, do Departamento de Letras (DL) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), em uma extensa pesquisa realizada no Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa faz parte de seu projeto de pós-doutoramento, iniciado em setembro de 2017, e seu principal intuito é buscar refinamento teórico de aspectos relativos ao modo como os textos do geógrafo circulam. A docente trabalha com a obra de Santos há mais de uma década. "Este autor é muito lido por outras áreas, dentro e fora do Brasil. Na própria Geografia, ele tem um lugar proeminente, polêmico - no meu entender, muito produtivo, pois movimenta um campo chamado Geografia Humana", ressalta ela.

Para realizar esses estudos, Salgado analisa um rico material disponível no Acervo do IEB - caixas com anotações, bilhetes, telegramas, cartas, rascunhos variados, recortes de leitura e montagem de aulas, palestras e livros do geógrafo. Com as análises realizadas até o momento, a docente refutou sua principal hipótese: a de que Santos teve influência dos estudos da linguagem em seus materiais produzidos. No entanto, Salgado percebeu algo nas obras do geógrafo que está diretamente relacionado a sua área de especialidade: os ritos genéticos editoriais de Milton Santos. Ou seja, o modo como ele organizava os materiais, que mostra diversas etapas, técnicas e coletivos. Segundo a pesquisadora, a investigação - inédita - tem encontrado materiais que revelam um rigoroso sistema de organização de um dos maiores teóricos brasileiros, lançando luz sobre os ritos genéticos editoriais da obra que reinventou, em boa medida, os estudos do espaço, do tempo e do modo como os objetos técnicos produzem subjetivação. "Em materiais relativos a algumas de suas obras, como é o caso da que está em foco na pesquisa neste momento, 'A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo, Razão e Emoção', publicada em 1996, é possível verificar como os processos editoriais são determinantes na construção de um pensamento teórico consistente", relata a pesquisadora.

Ainda segundo a docente da UFSCar, Santos propõe uma teoria da organização social a partir das relações entre humanos e objetos. "Isso é justamente o que considero o ganho epistemológico para minha área de atuação, que são os estudos da linguagem, e que fazem fronteira com estudos de outras áreas interessadas na inscrição material da Língua - ou seja, no fato de que os sentidos se produzem também no modo como os textos são difundidos e, portanto, são consumidos ou apropriados. Não há matéria inerte ou circulação inócua; é possível analisar o modo como as materialidades possibilitam ou não certas formas de produzir e de ler textos, como afetam constitutivamente a produção dos sentidos", explica ela. Um exemplo de aplicação dessa teoria diz respeito aos aparelhos celulares. "Nós informamos, aos nossos aparelhos, uma série de dados logo que chegam - baixamos aplicativos, preenchemos formulários, criamos avatares e deixamos nossos rastros pessoais. Depois de um ou dois meses, são os celulares que nos informam sobre nossos compromissos, nos lembram sobre acontecimentos, nos cobram pagamentos, nos despertam conforme uma programação, nos embalam o sono ou dão a trilha sonora do dia e nos deixam em estado de alerta com suas várias formas de notificação. Enfim, o celular nos mostra como viver, pauta nossa vida, diz quem somos. Nós vivemos um tempo cheio de objetos altamente subjetivantes", descreve Salgado.

Outro ponto importante enfatizado por Salgado em sua pesquisa de pós-doutoramento no IEB é o fato de que todo arquivo é fonte de conhecimento - tanto dos documentos que se arquivam quanto das formas de arquivamento que, segundo a docente, não são nada neutras e exigem inteligência e criatividade. "A memória que um arquivo não só abriga, mas também produz, é mais do que uma relação com o passado. É uma relação com nós mesmos, agora, hoje, na atuação que exercemos, no contexto em que vivemos. Todo arquivo é uma chance de nos reconciliarmos com a nossa condição humana. Uma universidade sem arquivos é uma universidade desumanizada", defende a professora.

Seu projeto de pós-doutoramento se encerra em setembro de 2018, mas a docente foi convidada a compor a equipe do Fundo Manoel Correia de Andrade, também no IEB, para dar continuidade às pesquisas de arquivo. "Além disso, fui credenciada no Programa de Pós-Graduação do IEB, o que pressupõe uma relação de pesquisa com o Fundo Milton Santos sem hora para acabar. Isso significa muitas possibilidades de intercâmbio entre docentes, discentes e, ainda, estreitamento entre as atividades do Laboratório Escritas Profissionais Processos de Edição [LABEPPE], sediado na UFSCar, reunindo, entre outros, o Grupo de Pesquisa Comunica - Inscrições Linguísticas na Comunicação, o qual coordeno, e o LabIEB, laboratório interdisciplinar do Instituto de Estudos Brasileiros", prevê a pesquisadora.

De acordo com Salgado, o trabalho em arquivo proporciona uma imensa troca, considerada qualificadora das práticas de todas as pessoas envolvidas. "Além de realizar esta pesquisa no IEB, contribuo para a organização do material que analiso, já que, como pesquisadora, posso informar à equipe gestora sobre as necessidades, achados ou formas de busca que parecem eficazes, de acordo com minhas experiências", relata ela. Com este projeto, a docente tem a oportunidade de realizar um trabalho interdisciplinar, que envolve, além da Geografia e da Análise do Discurso, outras áreas do conhecimento. "Tenho trabalhado com historiadores, economistas, antropólogos, sociólogos e geógrafos. Nada é mais importante no mundo da produção do conhecimento - aquela do livre pensar, e não a da mera reprodução de técnicas sabidamente rentáveis e convenientes - do que seguir investindo em trocas: entre campos, entre áreas, entre instituições. Não se alargam horizontes e não se fortalecem teorias e instituições senão nas arenas de debate constituídas pela vontade de construção coletiva", finaliza Salgado.

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