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terça, 26 de outubro de 2021
Saúde

Combate à Doença de Chagas é tema de defesa de tese de pesquisador da USP São Carlos

22 Mai 2019 - 13h59Por Redação
Combate à Doença de Chagas é tema de defesa de tese de pesquisador da USP São Carlos - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Curiosidade e inovação. Palavras essas amplamente relacionadas ao contexto científico, tem um papel muito maior no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) que, reconhecido como polo científico de excelência, busca incitar a produção científica de discentes e docentes da instituição e, acima de tudo, conciliar o desenvolvimento científico e social brasileiro. Assim, Francesco Brugnera Teixeira, de 28 anos, como bom ifscano, seguiu da melhor forma o exemplo da instituição. O ex-aluno do Curso de Ciências Físicas e Biomoleculares do IFSC/USP concluiu em março do corrente ano a última etapa de sua trajetória acadêmica e, agora como doutor, reflete quanto aos desafios e o crescimento intelectual pós-defesa da tese de doutorado, cujo título foi “Estudos biofísicos da proteína P21 de Trypanosoma cruzi”, significando talvez o início da caminhada para a cura e combate à Doença de Chagas.

Segundo Francesco, o primeiro contato com a proteína que lhe rendeu a tese de doutorado ocorreu ainda na graduação devido à iniciação científica supervisionada pelo Prof. Eduardo Horjales, que pesquisava o papel da proteína na ação dos parasitas. “Alguns estudos já haviam sido conduzidos, confirmando que a P21 está envolvida no processo de invasão celular pelo parasita”, menciona. “Mas, os pesquisadores da cristalografia e, principalmente, o Prof. Horjales, queriam ir além de informações puramente biológicas, desejando contribuir com o projeto através de biologia molecular e estrutural. Quando eu entrei, a grande dificuldade enfrentada era a cristalização da proteína, o que, a princípio, permitiria uma análise estrutural completa. Foi quando nos propusemos estudá-la a partir de outra técnica estrutural - a Ressonância Magnética Nuclear”, recorda Brugnera.

A técnica de Ressonância Magnética Nuclear (RMN) trouxe novos desafios. Sabendo que o procedimento de produção de proteína adotado anteriormente possuía um rendimento baixíssimo e que muitas dessas deveriam ser isotopicamente marcadas com 13C ou 15N, o desenvolvimento de um novo protocolo de obtenção de amostra foi imperativo para progredir com o projeto. “A proteína é produzida em corpos de inclusão, ou seja, formam agregados insolúveis. O procedimento padrão consistia em adicionar um agente caotrópico - nesse caso ureia -, desestruturando e consequentemente solubilizando a proteína. Mas, ao retirar a ureia no processo de diálise, as estruturas parcialmente enoveladas voltavam a interagir em solução, reformando os agregados e resultando num rendimento muito baixo”, discorre Francesco sobre as dificuldades de utilização do procedimento padrão. “O que fizemos foi, após o processo de solubilização, imobilizar a proteína em resina de níquel, reduzindo fortemente essa interação intermolecular. Em seguida, diminuímos gradativamente a concentração de ureia, o que promoveu o retorno à estrutura nativa. Ao retirarmos a proteína da resina com a estrutura completamente reenovelada, o processo de agregação não ocorria mais. O próximo passo foi comparar a pequena fração de proteína com estrutura nativa, produzida em solução pela célula, com a obtida após o processo de renovelamento proteico. Utilizamos técnicas simples de ressonância, assim, se um espectro estivesse coincidindo com o outro, poderíamos afirmar que a proteína retornou para a estrutura nativa. E foi exatamente isso que aconteceu! Assim, obtivemos a validação de nossos protocolos de renovelamento, o que também nos rendeu uma publicação sobre o procedimento”, afirma Brugnera.

Obtido o sucesso no desenvolvimento do protocolo para facilitar a análise da proteína, coube ainda a Francesco o ataque ao problema em duas frentes: a análise estrutural tridimensional da molécula e a interação dela com o alvo biológico que ela atua. “Em primeira análise, obtivemos informações extremamente relevantes sobre a proteína. Ela é uma proteína muito flexível, o que explica, em parte, a dificuldade na cristalização; em segundo lugar, boa parte da P21 está em estrutura random coil, o que dificulta uma análise mais profunda por RMN, porque a estrutura tende a fazer com que o espectro colapse numa região só, resultando numa grande sobreposição de picos”, revela. “Quanto à interação da proteína com a célula humana, essa é responsável por desencadear diversos processos através da interação com a proteína de membrana humana, a CXCR-4. A porção inicial da CXCR-4 fica exposta no meio extracelular, e, através da literatura, sabíamos que essa região interagia com seu agonista natural, outra proteína humana chamada CXCL-12. Como essa fração está no meio extracelular, e como também sabíamos que a P21 é uma proteína secretada pelo parasita, nós testamos a ligação entre a porção extracelular dessa proteína de membrana e a P21. Assim, obtivemos indícios que essa é a forma que a P21 interage com a célula humana, desencadeando vários processos dentro da célula, levando à fagocitose do Trypanosoma, e a outros efeitos, como a prevenção de formação de novos vasos sanguíneos. É uma proteína que atua de diversas formas”, completa.

Quanto ao desenvolvimento pessoal e profissional durante o doutorado, Francesco afirma que embora muito dependa da pesquisa realizada por ele, as atividades extracurriculares não ficaram de fora do processo pessoal de aprendizagem. “Depois do doutorado é perceptível como você desenvolve muitas habilidades que não pensava possuir, como gestão de projetos, habilidade de apresentação e escrita - que é muito valorizada - e desenvolvimento de protocolos. Além do doutorado, algo que foi de extrema importância para o meu crescimento foi a criação do grupo de esgrima histórica Karlbrüder, em 2015”, revela. “Nós praticamos esgrima histórica, estudamos manuais de luta da era medieval e renascentista e, a partir dessa pesquisa, recriamos como as pessoas realmente lutavam com espadas no passado. Quando conduzimos um projeto como esse, aprendemos muito sobre empreendedorismo e gestão de pessoas, então, no futuro, quero aplicar o que aprendi na gestão deste grupo, somado ao que aprendi no doutorado e levar para alguma área em que eu possa aproveitar ambas experiências”, conclui.

Em relação ao futuro profissional, Brugnera revela que o rumo pretendido tangencia a carreira acadêmica. “Em particular, quero utilizar o que aprendi no doutorado para aplicar na indústria. Tenho duas ideias principais: uma delas é a carreira de ‘medical science liaison’, onde você faz a ponte entre as empresas farmacêuticas e os pesquisadores e médicos, chamados líderes de opinião. Outra é a ‘field application scientist’, na qual se atua em empresas de biotecnologia ou de equipamentos científicos, ajudando os clientes através de treinamentos e colaborando com a sua pesquisa; aproveitando, assim, toda a experiência em ensino adquirida”, simplifica Francesco, que agora trabalha duro para construir o currículo ideal para o mercado de trabalho. “É no que eu estou trabalhando agora. Quando você sai do doutorado, percebemos que o que a indústria valoriza é totalmente diferente. Citar no meu currículo que eu desenvolvi um protocolo que aumentou o rendimento de produção de proteínas em 50 vezes, às vezes vale até mais que a publicação científica, mais valorizada na academia. Agora, estou aprendendo a lidar com a indústria, vendo minhas potencialidades e tudo que eu tive acesso no doutorado, de outra forma. Isso dá muito trabalho. Estou trabalhando tanto quanto trabalhei no processo de escrita do doutorado, porque você deve fazer networking, montar diferentes currículos dedicados às vagas específicas...”, emenda.

A visão do ex-pesquisador, que já morou um período fora do país, mistura realidade e otimismo quanto ao mercado de trabalho e pesquisas no Brasil. Segundo Francesco, o período que passou na Alemanha durante o doutorado foi muito proveitoso tanto academicamente - pela disponibilidade de aparelhos de ressonância ainda de acesso limitado no Brasil - quanto culturalmente, o que o faz cogitar retornar ao exterior. O retorno, entretanto, não significa uma “falha” no mercado brasileiro, que inclusive, revela-se cada vez mais forte. “No Brasil também há bastantes oportunidades nas áreas que pretendo atuar. Hoje em dia é cada vez mais comum buscar pessoas com doutorado para atuar na indústria, porque ela sabe que quem fez doutorado é também um doutor em aprender, que sabe agir por conta própria e estudar, independentemente de onde vai atuar”, enfatiza. Quanto à produção científica no país, Francesco interpreta a necessidade de valorização científica para o êxito nacional. “Acredito ser muito importante manter a ciência de base. Políticos, principalmente, não conseguem ver a importância que a ciência de base tem no país e, infelizmente, quando o dinheiro aperta, a primeira área que perde financiamento é a pesquisa. Acho de extrema importância o investimento na educação e a pesquisa faz parte disso, mesmo eu não querendo continuar na carreira acadêmica em si”, ressalta.

O ex-aluno, natural de Atibaia (SP), relembra ainda a infância e adolescência, assim como a difícil decisão de escolher o curso de graduação. Francesco sempre gostou de estudar, ser aluno, e quase todas as disciplinas aprendidas na escola o agradavam, coisa que para ele, possivelmente tenha dificultado a escolha no final do terceiro ano. “Basicamente, sempre gostei de todas as matérias da escola e por gostar de tudo às vezes é muito difícil realmente escolher o que fazer. Eu gosto de fazer a comparação com minha esposa: ela nunca gostou de ciências exatas, mas se identificava muito com biológicas, então seguir uma carreira na área de saúde foi a decisão lógica. Como eu sempre gostei muito de estudar e pesquisar, como era muito curioso, busquei algo bem interdisciplinar”, comenta quanto ao curso de Ciências Físicas e Biomoleculares, ainda novidade em 2008, quando prestou o vestibular. “Era bem interdisciplinar, algo mais focado em Física, mas relacionado à Química e Biologia, então foi o que escolhi. Não que alguém de 17 anos tenha plena certeza daquilo que quer, se alguém já sabe com essa idade, tem muita sorte, mas eu acabei gostando da área por envolver vários aspectos da ciência. Ao sair da graduação, continuar na mesma área foi algo bem natural para mim, era o que eu gostava”, diz.

Do Instituto como todo, Francesco carrega boas lembranças de professores, funcionários e um ambiente acadêmico de qualidade. “Eu sempre gostei bastante do Instituto, principalmente na questão do pessoal. Os professores sempre foram muito atentos ao ensino. Os funcionários da graduação e da pós-graduação também foram sempre muito prestativos, ajudaram muito e foram sempre muito rápidos e eficientes. Eu era da época em que as carteirinhas de ônibus precisavam ter um carimbo mensal com a assinatura de professores, então eu os perturbava todo mês, mas sempre foram muito prestativos”, comenta com humor. “Também sempre gostei do ambiente da biblioteca, bem organizada, boa para estudar”, completa.

Para os alunos, sejam ingressantes ou veteranos de longa data, Francesco recomenda expandirem horizontes e buscarem o que, de fato, gostam de fazer. “Acredito que você só vai ser bem sucedido em qualquer profissão, se você realmente gostar do que faz. Então, se você escolheu a carreira acadêmica, ou pretende seguir em qualquer outra área, é importante estar satisfeito. Mas isso também não é o suficiente: você deve ser muito proativo, sempre buscar oportunidades quando elas surgirem e mostrar do que você é capaz de fazer para conseguir desenvolver sua carreira”, finaliza.

Para saber mais sobre o grupo de esgrima histórica Karlbrüder, CLIQUE AQUI https://karlbruder.com/

Para ler a publicação sobre os protocolos de renovelamento, CLIQUE AQUI https://www.nature.com/articles/srep04259

(Carolina Falvo & Rui Sintra - IFSC/USP)

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