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sábado, 27 de fevereiro de 2021
Cidade

Alunos da UFSCar protestam na Câmara quanto às condições do curso de Medicina

Aluna que discursou na Tribuna Livre, foi interrompida por diversas vezes e teve que concluir seu discurso de forma forçada.

20 Set 2012 - 14h30
Alunos do curso de Medicina da UFSCar participam de sessão na Câmara Municipal (Foto: Tiago da Mata / SCA) - Alunos do curso de Medicina da UFSCar participam de sessão na Câmara Municipal (Foto: Tiago da Mata / SCA) -

Na sessão da Câmara da última terça-feira (18), alunos do curso de medicina da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), fizeram uso da Tribuna Livre para protestar quanto ao andamento do Curso e as condições de oferta dos estágios práticos profissionais.

A aluna Stephania de Araujo Rodrigues, do primeiro ano do Curso de Medicina da UFSCar, fez uso da palavra em nome do Centro Acadêmico da Medicina Sérgio Arouca (Camsa) e apresentou os problemas enfrentados por eles, desde a formação do curso, principalmente na parte prática, onde deveriam realizar estágios dentro dos hospitais de São Carlos.

"Estamos em uma época de eleição municipal, e nenhum outro momento poderia ser mais propício para a discussão de dois temas explorados com exaustão durante a propaganda eleitoral e que se mostram de maior importância para nós que escolhemos a cidade de São Carlos para estudar", comentou a estudante, que neste momento foi interrompida pelo líder do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara, o vereador Lineu Navarro, que argumentou que ela não poderia usar da tribuna para falar de assuntos ligados às eleições. O vereador Marquinho Amaral (PSDB), discordando de Lineu, deu apoio à estudante dizendo que a Câmara "é a casa do povo, que as pessoas têm a liberdade de usar a tribuna e que os alunos têm sim a responsabilidade de falar com clareza e demonstrar a situação que eles estão enfrentando".

Stephania retomou a palavra dizendo que sua fala é apartidária e que apenas demonstra os problemas que eles (alunos) vêm enfrentando. "Conscientes do nosso papel na sociedade como cidadãos e como futuros médicos, hoje mais uma vez utilizamos dessa tribuna livre para expor nossos problemas, não por estarmos apenas seriamente preocupados com as dificuldades que se apresentam ao desenvolvimento das atividades do nosso curso que mais uma vez apresenta risco a sua continuidade, mas também com a relação intrínseca que possuímos com o Sistema Único de Saúde de São Carlos".

http://media.saocarlosagora.com.br/uploads/lunosmedicinacamara3.jpgO maior problema apresentado pela aluna é quanto aos estágios práticos, que são obrigatórios para a conclusão da graduação que em São Carlos os oferecidos não são suficientes para todos os alunos, que muitas vezes são obrigados a procurar esses estágios em outras cidades. Segundo eles (alunos), quando o Curso de Medicina foi criado, foi feito um comum acordo entre a Universidade e a Prefeitura, uma ficaria responsável pela parte acadêmica e a outra por oferecer estágios práticos na rede de saúde municipal.

"Esse acordo possibilitaria a nós uma formação moderna, humana de excelência e orientada às necessidades de saúde da população, para que nos tornássemos atores em um processo de mudança do Sistema Único de Saúde. Porém, infelizmente, em algum ponto deste caminho tortuoso, nossos sonhos como futuros médicos e nossos esforços como estudantes não foram e não são respeitados e correspondidos por aqueles responsáveis pela nossa formação", afirma Stephania.

Em 2009, conta ela, que os alunos, após longo período de pesquisa, conversas e debates, paralisaram as atividades do curso por 67 dias e apresentaram à Universidade e à Prefeitura uma pauta com reivindicações para a melhora do curso. Em 2010, os alunos enfrentaram uma nova interrupção de atividades de prática profissional por falta de hospitais para estágio. "Se passaram mais de seis anos que os alunos começaram a se manifestar sobre os problemas de planejamento, execução, compromisso e formação. Durante este ano (2012), ainda aguardando melhorias no ensino, realizamos diversas assembléias para discutimos o processo de nossa formação. Chegamos a conclusão de que nossos problemas só não foram solucionados como também vários outros surgiram", comentou Stephania que ainda afirmou que: "Nós (alunos) fomos enganados, a sociedade foi enganada, vocês foram enganados".

Neste momento, o vereador Lineu Navarro, novamente cortou a fala da aluna para dizer que ela estava fazendo acusações políticas e colocando os vereadores em sua fala. Mais uma vez o vereador Marquinho Amaral entrou em conflito com Lineu, e a discussão se estendeu por alguns minutos. O vereador Ditinho Matheus (PMDB) também entrou no meio da discussão e pediu para que a aluna continuasse com seu discurso, porém ela não teve muito tempo. Com o tempo já esgotado, com boa parte pela interrupção e discussão dos vereadores, o presidente da Câmara, Edson Fermiano (PR), pediu para a aluna concluir rapidamente seu discurso.

Ela concluiu dizendo que os alunos esperam propostas efetivas para a saúde e não somente rascunhos de governo, e deixou três perguntas para serem refletidas: "Há realmente um projeto de saúde para o município? Há realmente um alinhamento entre o Governo Federal e Estadual? Estarão realmente todos comprometidos com a qualificação e a inserção dos estudantes na Rede Escola?".

Em entrevista exclusiva ao São Carlos Agora, o estudante Hugo Amaral, do 6º Ano de Medicina, ele apontou os principais problemas enfrentados pelos alunos, que são os estágios práticos. "Hoje nossa principal reinvindicação é em relação aos estágios de prática profissional para que nós possamos concluir nossa graduação. Entre esses estágios existem o Hospital Escola, que ainda não foi concluído, e as Unidades de Saúde da Família, que não são suficiente para todos os grupos de alunos. Nós necessitamos de 30 equipes de Saúde da Família, para que cada grupo de alunos possa estar em uma equipe de saúde da família, hoje temos apenas 14 unidades com 16 equipes, que é o mesmo número de cinco anos atrás, de 2007, e de lá para cá nenhuma unidade nova foi construída, então ouve uma estagnação na ampliação da oferta de serviço de saúde da atenção básica no município".

O estudante relatou que desde a criação do curso, há sete anos atrás, ele vem apresentando problemas, principalmente na parte de estrutura de estágios práticos. Para eles, alunos, tanto a Universidade, quanto a Prefeitura tem parte nestes problemas.

"Na nossa visão, quando foi implantado o curso de Medicina, que foi um comum acordo entre a Universidade e a Prefeitura de São Carlos, a UFSCar confiou muito na Prefeitura, que ela fosse bancar a ampliação do Sistema de Saúde, fosse melhorar esse sistema, fosse possibilitar que os docentes do departamento de medicina atuassem nessa rede, que ela fosse oferecer seus médicos para serem nossos preceptores, nossos professores no ambiente de prática, e isso não aconteceu", explica Hugo.

Ele conta ainda que o 5º e 6º ano, os dois últimos anos da graduação, tem enfrentado um problema ainda maior do que os outros anos, pois eles necessitam dos estágios práticos para concluir o curso, e como em São Carlos, o sistema de Saúde não oferece, ou não comporta esses alunos, os mesmo têm que procurar estágios em Hospitais de outras cidades, como Limeira, Bauru e Diadema.

"Somos obrigados a viajar, a ir para outras cidades para realizarmos nossos estágios. A Universidade fez uma parceria com outras Universidades possibilitando que os alunos daqui façam seus estágios lá. Atualmente temos alunos trabalhando na Santa Casa de Limeira, no Hospital Estadual de Bauru e no Hospital Estadual de Diadema, uma vez que o Hospital Escola de São Carlos não comporta boa parte dos alunos, mesmo porque depois de vários anos, ele ainda não foi concluido", afirma.

Quanto aos serviços de saúde em São Carlos, Hugo afirma que "é muito difícil o acordo do Curso com a Santa Casa, para os estudantes estarem lá dentro, seria muito útil e é necessário para nossa formação, mesmo porque a Santa Casa nunca competirá com o Hospital Escola, são Hospitais diferentes que se complementam. Atualmente nós conseguimos dar apenas alguns plantões de cirurgia na Santa Casa, em outras áreas não. Na maternidade, que deveria estar de portas abertas, não está, e assim temos que ir para outras cidades para fazer lá o que poderíamos estar fazendo aqui".

Ele concluiu dizendo que os alunos querem medidas efetivas das partes envolvidas (UFSCar e Prefeitura), para que possam ter um ensino de qualidade, uma estrutura essencial e que possam ter espaço para trabalhar (estágio) no sistema de saúde da cidade onde escolheram estudar.

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