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segunda, 10 de dezembro de 2018
Memória São-carlense

Coral de Casais Encontristas Prof. Wilson Cury, 44 anos de amor pela música sacra

12 Out 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Coral de Casais Encontristas Prof. Wilson Cury, 44 anos de amor pela música sacra - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Uma crônica de amor à música sacra é escrita há 44 anos, o tempo de existência do Coral de Casais Encontristas de São Carlos, atual Coral “Prof. Wilson Cury”, assim chamado em homenagem ao fundador e regente, falecido em 2012 aos 75 anos.

A memória do maestro percorre as apresentações do Coral pela inspiração de seu entusiasmo e presença da esposa Diana Cury, organista, fundadora e hoje diretora geral, e do filho Wilson Júnior, o atual regente que lembra muito o pai.

A família Cury está na gênese da formação do Coral e na explicação da longevidade do grupo de cantores, conhecido do público são-carlense – não só pela comunidade católica –, por levar a magia da música a cerimônias e eventos diversos. De casamentos e formaturas a bodas e cantatas de Natal em igrejas, salões de festas e espaços públicos.

Eu me recordo do quanto era especial minha adolescência, acompanhar ao lado de minha mãe as celebrações solenes da Catedral de São Carlos. Vindo da pequena Boa Esperança, eu passava a conhecer preciosidades da cidade que, além daquele templo espetacular com seus vitrais e a cúpula amarela de 60 metros, possuía um Coral que parecia amplificar o alcance das orações. Trago comigo a convicção de que a música é uma forma direta de colocar-se em conexão com o sagrado. Eu não me tornei padre, como minha mãe desejava, mas se assim fosse haveria de estimular o canto, como fez na ocasião o padre Bruno Gamberini. Padre Bruno, de presença afável, fora colega de meu irmão Tadeu na época do Seminário e muitos anos depois viria batizar meu filho.

O religioso já falecido que se tornou Bispo e Arcebispo, cruzaria com a história do Coral dos Encontristas num instante em que fonte e sede da música sacra pareceram ter um encontro marcado. Antes disso, outra conjunção de eventos no ano de 1974 concorreria para que o começo se desse de maneira espontânea.

O SURGIMENTO DO CORAL

Em julho daquele ano, na reunião preparatória da oitava edição do Encontro de Casais com Cristo, o pároco da Catedral, o saudoso Virgilio di Pauli (1923-1999), e a professora Núbia Genovez, sabendo que o professor Wilson Wady Cury na época trabalhava com os corais Orfeão de Bocaina e Orfeão São-carlense, o convidaram para formar um coral de casais apenas para cantar uma Ave Maria no encerramento do encontro.

O que seria uma audição solitária se tornaria uma longa e fecunda caminhada, como veremos depois. É interessante notar a presença de educadores no contexto da formação do coral, e isso talvez diga algo sobre a semente que se plantou.

A professora Núbia de quem fui aluno no Instituto de Educação “Dr.Álvaro Guião”, tinha mesmo de estar na hora certa e no lugar certo. Sensível e iluminada pelo dom de educar na mais ampla acepção da palavra, foi também professora de meus filhos na Escola Coronel Paulino Carlos e me recordo que certa vez, já aposentada, em rápida visita à escola às vésperas do carnaval, fez uma performance improvisando uma bandeira branca com que desfilou pela classe, convidando os alunos a cantar junto com ela o refrão da marchinha imortalizada por Dalva de Oliveira: “Bandeira branca, amor/Não posso mais/Pela saudade que me invade/Eu peço paz”.

O professor Wilson Wady Cury, nascido em Urupês e radicado em São Carlos desde os 11 anos, graduado em Letras Neolatinas e em Ciências Pedagógicas, fez curso de Canto Orfeônico na antiga Faculdade Católica de Campinas, hoje PUC Camp. Ao mesmo tempo cantava no Orfeão São-carlense, tendo por mestres os maestros Andrelino Vieira e Olga Ferreira; ali começou sua formação como regente.

A professora Diana Cury teve seu primeiro contato com a música aos 6 anos, influenciada pela mãe, exímia pianista, e pelo pai, talentoso violinista. Diana estudou piano por três anos com a professora Dila Bellucci Darezzo e em seguida ingressou no Conservatório Musical de São Carlos, estudando com a professora Cacilda Marcondes Costa e o professor Antonio Munhoz. Ali se especializou em piano, aprendendo as matérias teóricas e inclusive canto orfeônico. Ainda na adolescência no final dos anos 1950, participou do Orfeão São-carlense organizado pela Professora Elydia Benetti, com os maestros Andrelino Vieira e Olga Ferreira. No orfeão, Diana e seu futuro marido Wilson, com quem se casou em 1965, começaram a atuar juntos na música.

Pode-se dizer que são frutos dessa união, Cynthia, Claudia, Wilson Junior, os netos Giovanni, Paola, Gabriel e Lucas e... o Coral de Casais Encontristas.

AS PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES

O dia 22 de setembro de 1974, um domingo, marcou a primeira apresentação do grupo formado a partir do convite de Cônego Virgílio e dona Núbia. Os ensaios prévios aconteceram na casa de Nelson Rodrigues (Nelsão), e esposa Rosa Rodrigues, que possuíam um piano de armário. Ali também estiveram Walter e Silvia Barros e Sirlene Bernasconi.

Nelsão se tornou o primeiro organista do coral, função que mais tarde deixaria em razão do trabalho no restaurante Roda Vinho e das aulas que ministrava. Sucedido pela professora Diana, ele seguiu fazendo os arranjos para algumas músicas que o Coral canta até hoje. A primeira formação tendo à frente Wilson e Diana, contava com os casais Rosa e Nelson Rodrigues, Walter e Elza, Izabel e Toninho Novo, Ezio e Luvir Bernasconi, Antônio Mario e Iria, Betão e Lucinha, Airton e Hayde, Sergio Pepino e Terezinha, Evaristo e Ondina, Waldir e Maria.

Na prática, era como se eles celebrassem um novo casamento, desta vez uma aliança construída pela paixão musical. Da audição de Ave Maria de Pozzetti, o grupo passava a cantar nos demais encontros de casais e nas liturgias da Catedral. Eram os primeiros passos de uma surpreendente e longa caminhada que traz ensinamentos: se na vida tudo que permanece impõe sacrifícios, a permanência de um coral é o triunfo de muitos esforços individuais. A qualidade musical se torna filha dileta de outro casal formado por talento e dedicação.

Eduardo Santangelo, hoje professor e pianista renomado, atesta que o Coral de Casais Encontristas foi sua primeira escola de música. “Nele eu fui musicalizado, assistindo-os sempre, cantando junto com meus pais e todo o coro, ouvindo atentamente os ensaios na Catedral de São Carlos”, diz. “As melhores recordações e os melhores momentos de minha infância foram em companhia desse grupo”.

Com o crescimento do coral, a harmonia entre baixos, contraltos, sopranos e tenores se revelou também a harmonia entre amigos que foram se incorporando ao grupo. Já em dezembro de 1974 os cantores realizavam serenatas em casas de amigos às vésperas do Natal. Desde o início até hoje os donativos recebidos são convertidos em mantimentos doados a famílias necessitadas na cidade e região.

A história do coral ganhou impulso com a entrada em cena de um personagem central: o padre Bruno Gamberini (1950-2011), que buscava a música sacra e naquele instante, por uma urdidura do tempo, encontrava no coral a possibilidade de difundir as composições musicais de sua autoria. De repente o coro de vozes masculinas e femininas ganhou um horizonte novo (eis mais um traço do grupo: reinventar-se). Recém-ordenado, padre Bruno comandava um coral formado por seminaristas que logo se entrosou com o coral dos encontristas. O padre estudara canto coral e regência na Sociedade Pró-Música em Curitiba e fazia gosto na divulgação de músicas de sua autoria e o clero local incentivava aquele “movimento”. Todos se recordam do apoio dado por cônego Virgílio, sucedido ao se tornar bispo por Padre Luiz Cechinato, que também abraçou o coral. Escritor e homem de vasta cultura, padre Luiz entendeu o alcance daquele trabalho.

Em janeiro de 1975 o coral fez sua estreia em casamentos, convidado para cantar na cerimônia em que se casou o irmão de um de seus membros, Luvir Bernasconi. Seguiu-se a apresentação no casamento de Samira, irmã de Diana, e a consolidação como um coral permanente para auxiliar a comunidade – e que crescia a cada encontro de casais.

ORGULHO DE SÃO CARLOS

Em 1977, o cronista Aduar Dibo documentava em sua coluna no jornal “O Diário” o orgulho de São Carlos pela existência do Coral dos Encontristas, “sempre se apresentando com sucesso em cerimônias na cidade e realizando iniciativas filantrópicas, como a campanha do cobertor que distribuiu centenas de peças às famílias carentes”.

No mês de outubro de 1983 foi lançado o livro “Levantamentos Históricos sobre o Jardim Público de São Carlos do Pinhal”, do professor Ary Pinto das Neves, e lá estava o Coral abrilhantando a cerimônia. No dia seguinte, a Câmara Municipal homenageava o historiador, eleito “Professor do Ano”.

CDs

O primeiro CD do Coral foi produzido em 1999 – Cantando a Páscoa, cantando a Vida –, com músicas de Dom Bruno, lançado em grande estilo no dia 22 de maio de 2000 no Teatro Municipal, em evento prestigiado pelo bispo diocesano D. Joviano Lima Junior, pelo então bispo de Bragança Paulista, D. Bruno Gamberini e por Monsenhor Luiz Cechinato, vigário geral da Diocese. O segundo CD – Orando e Meditando com os Salmos – viria em 2009, reunindo todos os salmos musicados por D. Bruno.

Com regência de Wilson Wady Cury Junior, direção geral e órgão a cargo da professora Diana Cury e com Ana Maria Arab cuidando do marketing, o Coral é atualmente composto pelos sopranos: Alba Ligia Cerrutti, Aparecida Simões, Cristiani Joaquim, Dalva Sonia Paulino, Dirce J. Mello, Idalina Seconeli, Márcia A. Poli, Maria Ap. J. Campos, Mirian L. Silva, Nalvia M. Vedovelli, Teresinha P. Rodrigues e Maria Ondina de Oliveira; contraltos: Ana Maria F. Corrêa, Claudete Cury Sacomano, Edérgea V. Villela, Izabel Novo, Maria Cleufer L. Godoy, Mércia E. Paschoalino e Wilma S. Arab; tenores: Jorge H. Carrara, Valcenir A. Beltrami e Wanderley Villela; baixos: Cesar Joaquim Neto, Julio Castro e Mauro L. Thobias.

A estrada percorrida pelo coral traz em si a lição de que é possível fazer grandes coisas quando existe uma convergência de esforços entre seus mesmos. Sobretudo quando a união de todos se torna metáfora de um coral, na sintonia reveladora do espírito de uma comunidade digna desse nome.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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