Sex, 24 de Novembro de 2017
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05/10/2016 - 05h49   |   Atualizado em 05/10/2016 - 05h50
(*) Rui Sintra

Artigo Rui Sintra: O trem descarrilou de vez

Foi impressionante assistir ao descarrilamento do trem do Partido dos Trabalhadores nestas últimas eleições municipais e que arrastou com ele grande parte da esquerda brasileira, fato que não deixa de preocupar todos quantos defendem que a Democracia tem que ser entendida e praticada através do equilíbrio de forças. Mas, se analisarmos os fatos que ocorreram ao longo dos últimos anos, acabamos por constatar que foi o próprio Partido dos Trabalhadores que promoveu a vertiginosa queda que vitimou a esquerda.

 Não é preciso entrar no mérito da corrupção, pois todos nós sabemos o que aconteceu e o que continua a acontecer, embora os acontecimentos relacionados com esse tema tenham servido de estopim, começando lá bem atrás, com asreações públicas relacionadas a partir da queda de José Dirceu. Em vez de medir as palavras e as atitudes e de fazer uma faxina em seu próprio reduto, o partido optou, logo a partir desse episódio, por promover a elevaçãodo citado personagem à categoria deherói quase nacional, promovendo e autorizandoluxuosos comboios com destacados membros do partido e políticos inseridos na mais alta esfera governativa, para fazerem fila na entrada do presídio, apoiando assim o seu mais novo locatário e levantando as vozes e os punhos bem altos em atos quase histéricos que deixaram a sociedadede boca aberta perante tamanha desfaçatez.

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Depois vieram muitos outros episódios que contribuíram para a progressiva queda do partido e da destruição de seu palanque, como, por exemplo, as falsas promessas feitas durante a última eleição presidencial, a exaltação do presidente da CUT para que os militantes e simpatizantes fossem para as ruas"entrincheirados, com armas nas mãos, se tentarem derrubar a presidenta",passando pelos desastrosos discursos relacionados com "eles e nóis", as "elites brancas de olhos azuis", o golpe e o processo de "impeachment", já para não falar da notável descoberta do homem mais honesto do mundo e de sua auto-comparação com Jesus Cristo, além de muitos outros episódiosque não deixaram indiferente a sociedade brasileira, ou seja, os eleitores: resumo da história, os eleitores, principalmente os da esquerda brasileirae do Partido dos Trabalhadores, que por direito até então tinham algum orgulho em defender as filosofias próprias dessa ala, optaram por uma das duas coisas - metade ficou em casa e não votou, e a outra metade votou contra os candidatos do próprio partido.

É óbvio que tudo isto e muito mais contribuiu para o resultado desastroso do Partido dos Trabalhadores nestas eleições e para a verdadeira humilhação que inúmeros candidatos petistas -muitos de boa índole - sofreram, até porque a essa altura do campeonato, deles o partido só esperava isso mesmo - que fossem carne para canhão, depois de tudo aquilo que o partido fez para naufragar junto com os seus mais de 54 milhões de votos obtidos na última eleição presidencial. Impressionante a forma como um partido consegue, em tão pouco tempo, cometer um seppukurápido e perfeito.

Para culminar esta eleição desastrosa para o PT e numa espécie de último brinde á incongruência eà perfeita falta de noção básica, eis que alguns militantes petistas expulsaram, na noite da apuração da votação, uma jornalista da Globo News, entoando "Globo Golpista, não passarão!", "A Globo Apoiou a Ditadura!" e "Assessora do PMDB", fato ocorrido no diretório municipal do PT, quando a profissional da comunicação se preparava para colher, ao vivo, as declarações de Fernando Haddad, derrotado no pleito pela cidade de São Paulo. Não há palavras que descrevam tamanha falta de inteligência e até de atitude democrática que, neste caso, configurou cerceamento de informação, algo impensável a quem se intitula de esquerda e na defesa dos trabalhadores e dos direitos adquiridos via Democracia.

Desde o "mensalão" que o Partido dos Trabalhadores perdeu o controle de si mesmo, como se um vírus se tivesse disseminado até pelas suas figuras mais carismáticas. Veja-se, por exemplo, as palavras de Lula da Silva, no passado dia 02 de outubro, após exercer o seu direito de voto em São Bernardo do Campo (in Jornal O Estado de São Paulo): "A imprensa está em guerra com o PT. As pessoas se enganam quando (pensam) que uma TV, um jornal pode tudo. Não pode. É o povo que pode tudo". Lula mostrou-se feliz porque era um dia de eleições, pois elas "consolidam a democracia no Brasil" e dão oportunidade à população para escolher candidatos que vão gerar mais bem-estar nas localidades onde vivem. "As pessoas não tem que votar com ódio, mas esperança porque a eleição é para seu filho". Pois bem... Foi o que aconteceu:os eleitores escolheram, no seu entender, os candidatos que eventualmente fossem gerar mais bem-estar nas localidades onde vivem...

O resumo de tudo isto é que o Partido dos Trabalhadores e a esquerda brasileira poderão ter suas expectativas comprometidas para as próximas eleições presidenciais, já em 2018. A esquerda brasileira tem que mudar de discurso e de estratégia, para bem da Democracia e de sua própria sobrevivência. Os velhos métodos de persuasão pública, que muitas vezes descambam em alteração da lei e ordem, já não estão sendo tolerados pela sociedade, pela população, até porque uma coisa são os designados Movimentos Sociais, e outra coisa são os "Movimentos Políticos" ou "Braços Políticos", patrocinados e pagos pelos partidos. Os discursos, as atitudes e as iniciativas têm que ser mais apelativos, mais inteligentes, mais envolventes e mais atraentes, deixando de lado velhos jargões e táticas que já não produzem qualquer efeito junto das pessoas, a não ser a crítica, o voltar as costas, a indiferença. Declarações como a que fez Ivan Valente, candidato a vice na chapa de Luiza Erundina (PSOL) para a Prefeitura de São Paulo, após serem conhecidos os resultados da eleição, são clarividentes e só provam que a esquerda brasileira está moribunda: Diz a nota, em relação à chapa vencedora: "Uma candidatura que não tem vergonha de dizer que vai privatizar a cidade e governar para os interesses do capital. Mais do que isso, vence as eleições na maior cidade do país uma candidatura atrasada, que nega a política e deseduca nossa juventude", diz o texto. É certo que podemos ou não estar de acordo com as propostas apresentadas pela chapa vencedora em São Paulo, mas o certo é que os eleitores votaram majoritariamente nela. E, como se costuma dizer - "Voz do Povo é voz de Deus" e há que respeitar a decisão soberana do Povo, principalmente por aqueles que tanto batem no peito em nome desse mesmo Povo.

Contudo, o que todos os partidos políticos - e não só os de esquerda - precisam pensar é na sua própria sobrevivência, já que os eleitores, a população, mostrou claramente que falar em "político" é pior do que falar de dengue, malária ou H1N1, ou seja, essa figura causa imediatamente uma repulsa popular como nunca antes se observou. A sociedade pede sangue novo e discurso novo e os partidos políticos ainda não entenderem que é só por esse caminho que poderão continuar a sonhar com sua própria existência.

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