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domingo, 16 de dezembro de 2018
Memória São-Carlense

Vila Nery, o bairro mais antigo da cidade

09 Mar 2018 - 04h20Por (*) Cirilo Braga
As memórias de um antigo morador da Vila Nery referem-se ao primeiro bairro de São Carlos do Pinhal, constituído em 1899 - Crédito: Foto: Arquivo PessoalAs memórias de um antigo morador da Vila Nery referem-se ao primeiro bairro de São Carlos do Pinhal, constituído em 1899 - Crédito: Foto: Arquivo Pessoal

Armavam-se circos onde hoje está o prédio da antiga Casa de Saúde. Na atual Praça Brasil havia um campo de futebol e a molecada se divertia no terreno conhecido como “buracão”, ao lado do parque infantil, perto de onde certa vez um avião teco-teco desabou sobre um abacateiro.

As memórias de um antigo morador da Vila Nery referem-se ao primeiro bairro de São Carlos do Pinhal, constituído em 1899 quando, finda a escravidão, os imigrantes estrangeiros aqui chegavam trazendo esperanças na bagagem. As vilas foram se formaram naquele período atendiam pelos nomes de Isabel e Pureza (1891), Prado (1893) e Botafogo (1900).

Pois bem, entre flashes de suas lembranças, o amigo comentou a respeito de lugares que não conheci, mas sempre gostei da surpresa de saber o que havia antes no chão que a gente pisa hoje.

Só tinha ouvido falar da “Cantina Refúgio” e não eram do meu tempo as músicas que tocavam no alto falante da Praça Arcesp, no balão dos bondes, onde começa a rua Padre Teixeira, que já se chamou “rua Babylonia”, assim, com y.

Quando ali estive pela primeira vez a Vila Nery já abrigava a Escola Industrial Paulino Botelho e o então chamado “Hospital Novo” (ativado em 1968), numa região para onde a cidade espichou bastante a partir dos anos 1970, espremendo o campinho do bate-bola de todas as tardes ali ao lado da escola Professor Antonio Militão de Lima. As esquinas pareciam todas iguais quando se tornou moda a colocação de grades na frente das casas – mais por estilo que por medo, já que os moradores mantinham o hábito de bater papo na calçada nos dias de verão.

O centro da cidade já pareceu mais longe da Vila Nery do que é hoje. Eu achava inusitada uma placa torta que em 1979 indicava o “último posto”, na curva onde a rua Marechal Deodoro se transforma em Rua da Imprensa. O aviso era para quem estava seguindo rumo à rodovia que leva a São Paulo e São José do Rio Preto. Último posto lembrava os filmes western e para quem só estava indo até a Faculdade de Direito, soava engraçado, até porque a Vila Nery – nome genérico de uma porção da cidade que concentra mais de uma dezena de pequenos bairros – fica na verdade a menos de dez quadras da Avenida São Carlos.

Em 1981, pela Lei Estadual n.º 3.198, de iniciativa do deputado Vicente Botta, o bairro passou a ter status de Distrito – mas apenas status – como também aconteceu com a região da Bela Vista São-Carlense.

Quando começaram a surgir os conjuntos de casas que atravessaram a pista, o acesso por terra já era coisa do passado. O movimento dos bondes então, nem se fale. Ficaram guardados na memória dos avós e nem deixaram vestígios, que seriam os trilhos, cobertos pelo asfalto depositado sobre os paralelepípedos.  A Vila de hoje exibe como relíquia o exemplar do “Bonde da Saudade” ali no lugar onde ele fazia o “balão”. Mas a Praça Brasil já não abriga a  locomotiva de fabricação norte-americana que migrou da Praça Brasil para a estação ferroviária.

Padre Leonardo, da congregação dos Salesianos de Dom Bosco, reclamava nas suas homilias no início dos anos 1980 que poucos gatos pingados iam à missa da noite na Paróquia da Auxiliadora, “num bairro que soma 11 mil almas”, dizia. Hoje as almas quadruplicaram, a rua Capitão Luis Brandão – onde trinta anos antes havia pessoas correndo atrás de boiadas - se converteu num gargalo na movimentada ligação entre o centro e a “Zona Leste”, ou a ZL, como abreviam os pichadores de muros.

As famílias tradicionais, de origem italiana, ali permanecem e também a fábrica dos Rodrigues de Camargo, circundando a pracinha que reclama melhores cuidados, reunindo uma hora ou outra o pessoal da velha guarda que ali bate ponto religiosamente ao lado do local onde os Kabbach por muitos anos mantiveram sua concorrida padaria.

A Praça Arcesp nem é mais uma sombra da que ostentava um alto falante que animava as noites nos anos 1950, me conta um morador. Conserva, no entanto, o posto de referência da Vila Nery, como a caixa d`água que celebra o orgulho do lugar onde a água tratada chegou primeiro. O rádio, idem. Foi naquelas cercanias que Gisto Rossi conseguiu fazer a primeira transmissão radiofônica. E também o bairro foi eleito para abrigar o primeiro parque infantil da cidade, que recebeu o nome de Dom Manoel Tobias, na primeira administração do prefeito Antonio Massei.

E em 2002, o bairro foi o escolhido para a implantação da coleta seletiva na cidade, a partir de estudos realizados em 1997 pelo Prof. Dr. Valdir Schalch, especialista em resíduos sólidos da Universidade de São Paulo. 3.300 residências e aproximadamente 13 mil moradores participaram do projeto piloto.

Entre uma primazia e outra, não se ouviu mais o alto-falante da Praça, nem o alarido das arquibancadas do “Campo do Rui”, nas tardes de deleite diante da arte de craques como Zuza ou em dia de jogo da gloriosa Portuguesa da Vila Nery. O tempo passa, diria o falecido locutor esportivo Fiori Giglioti e as músicas de agora tocam na Intersom FM, fincada nos altos de Vila Nery há quase 36 anos.

Quando os bairros e as cidades vão adquirindo uma inquietante uniformidade e pouca coisa as distingue (e até o bolo da festa da paróquia parece ter o mesmo gosto), o melhor a fazer é resgatar o sentido de Vila. O sentido de um pequeno universo (pequeno ou grande, dependendo de quem olha). É na certa o começo e recomeço de todos os caminhos, tão metaforicamente representados pelos jovens que redescobrem a vida nos Salesianos e os mais velhos que redescobrem a vida na Universidade da Terceira Idade.

Fiz essas observações ao amigo, notando que ser “da vila” é, por exemplo, enxergar o valor do amanhecer rotineiro desse lugar de cotidiano tão simples e tão peculiar ali do lado onde o Sol nasce.

“O bairro é o mesmo. Nós é que tantas vezes ficamos sem ressonância para a beleza e perdemos o poder de descobrir o lado interessante de cada banalidade”. Palavras de um antigo cronista, que eu assino embaixo.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

 

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