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sábado, 20 de abril de 2019
Artigo Antonio Fais

Por alguém que me ouça

09 Fev 2019 - 06h30Por (*) Antonio Fais
Por alguém que me ouça -

Gisele acordou em pleno êxtase. Parecia haver desmaiado na cama no dia anterior. Mal se lembrava de que dia era. Sábado? Não. Sexta! Era sexta. Dia de trabalho e rapidamente veio-lhe a lembrança de uma reunião com um empresário italiano para discutirem um contrato importante para sua empresa. E estava atrasada!

Não. Não estava. Passava pouco das seis da manhã. Havia tempo para fazer tudo com calma. Café da manhã, banho e lembrar-se da noite anterior. Ah! A noite anterior. O que foi aquilo? Ainda dava tempo de abraçar o travesseiro e ficar se lembrando das últimas horas. E ela que nem queria sair de casa...

- Bom dia, Dona Gisele. A senhora dormiu bem?

Repete Luzia a mesma pergunta de todas as manhãs, com a mesa cuidadosamente arrumada com leite, café, frutas, pães e geleias.

- Bom dia, Luzia! Muito bem! Muito bem!

- A senhora parece muito contente hoje!

- Luzia, conheci um homem diferente ontem. Diferente de todos os outros. Delicado, encantador, educado, fino... Um Homem de   verdade!

- Então segura, porque se homem já tá difícil, quem dera um homem de verdade.

No banho ela se toca, lembra-se da mão dele percorrendo seu corpo. Uma só mão parecia envolver suas costas ao puxá-la para perto de si. Uma pegada de homem mesmo. A água da ducha lembrava a boca molhada percorrendo do pescoço às pernas, os braços fortes que não lhe davam possibilidade de dizer não, que a obrigavam a fazer o que ele quisesse ainda dentro do carro, uma das melhores obrigações de sua vida. Giovani. Era tudo que ela sabia dele. Giovani.

- Bom dia. Dona Gisele. A senhora parece muito bem hoje.

- Bom dia, Doralice. E estou mesmo. A reunião com o Diretor da empresa italiana?

- Ele ligou dizendo que vai se atrasar um pouco. Pediu desculpas, mas houve um imprevisto: Ele perdeu hora hoje.

- Eu também achava que estava perdendo hora, Doralice. Pegue dois cafés que eu quero lhe   contar...

- Doralice, conheci um homem encantador ontem.

Saí com umas amigas, para aquelas baladas chatas, onde só tem homem a fim de ficar por   uma noite, empresários que querem nos   impressionar com seus negócios e suas   conquistas... Mas lá estava ele: quieto, discreto, sorridente. Ele me olhava de longe. E eu já o   conhecia de algum lugar, mas não conseguia me   lembrar de onde. Justo eu, que guardo nomes, telefones de cabeça. Sei o nome de quase todos os funcionários da empresa.

- E olha que são mais de duzentos! – Dizia Doralice para confirmar a memória da presidente da empresa.

- Ele se aproximou de mim, sorriu e perguntou: “Tudo bem?”; e eu Respondi: “Tudo. Eu lhe conheço de algum lugar... Mas não me lembro de onde! E olha que sou boa fisionomista. Eu lhe conheço, não?”; ele apenas sorriu confirmando e eu, “Dá uma pista. Qual o seu nome?”; e ele respondeu “Giovani”.

- Doralice, um homem bonito, forte, olhos verdes, atencioso... Finalmente um homem que me dava atenção, ouvia o que tinha para falar, não escutava, OUVIA!

- Doralice, ninguém mais ouve a gente. Todos só querem saber de contar da sua vida, do que fazem, do que fizeram e do que vão fazer. Ninguém tem paciência de nos ouvir, de nos dar atenção. Mas Giovani não. Ele me ouvia, paciente, concordava comigo.

- Doralice, um cavalheiro! Levou-me ao meu carro, abriu a porta, entrou um pouquinho e foi me abraçando, me agarrando, com delicadeza tirou minha roupa no carro. Uma só mão sua envolvia toda a minha cintura... Doralice, que homem. E ele se despediu dizendo: “Nos vemos amanhã”.

- E aí? E aí? – Perguntava Doralice, sonhando com tal homem também para si.

- E aí? E aí que só sei que se chama Giovani. Não sei onde encontrá-lo. Sei que já o vi antes. Tenho certeza. Eu não esqueço um rosto... Ainda mais aquele rosto, aquelas mãos, aquele beijo...

- Sabe, Dona Gisele? Às vezes a gente só vê uma pessoa com um tipo de roupa e quando vê à paisana não reconhece. É assim com garçom, guarda...

- Quem sabe em um bom terno? Ou Jogando tênis no Clube?

- Dona Gisele, chegou o empresário Italiano.

- Ok! Então vamos a reunião – Disse Gisele, indo para a sala de reuniões.

- Dona Gisele, posso pedir para o Giovani limpar sua sala.

- QUEM?! - Em um grito surpreso.

- Giovani. O faxineiro.

- De uniforme laranja...? Giovani...? Faxineiro...?

Gisele respirou fundo e recuperando sua calma habitual:

- Não! Não quero mais esse moço trabalhando neste andar. Aliás, não o quero mais   neste prédio. Solicite outro faxineiro para minha sala e transfira-o a uma filial... De preferência em outra cidade.

(*) O autor é professor e filósofo.

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