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sábado, 17 de novembro de 2018
Memória São-carlense

O Professor Walter Blanco da Escola Paulino Carlos

09 Nov 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
O Professor Walter Blanco da Escola Paulino Carlos - Crédito: Cirilo Braga/Álbum de família Crédito: Cirilo Braga/Álbum de família

O imponente edifício da Escola Estadual Coronel Paulino Carlos, obra que teve supervisão do engenheiro e escritor Euclides da Cunha no início do século passado, evoca os grandes educadores e alunos dedicados que por ali passaram em 113 anos de história. Porém, basta olhar a placa com o nome da travessa onde a escola está localizada, na Praça Coronel Salles, para encontrar um nome exponencial na história do estabelecimento: Walter Blanco. O professor e diretor escolar que marcou época e se tornou uma referência do bom ensino ali ministrado.

Falecido em maio de 2002, vítima de um enfarte que o acometeu num dia de trabalho aos 61 anos (43 deles dedicados à educação), Walter vivia uma fase de grande entusiasmo pelas coisas que diziam respeito à escola. Sempre empenhado em alguma demanda educacional, poucos dias antes havia recebido na escola a visita do então prefeito Newton Lima, a quem descreveu em detalhes as atividades pedagógicas desenvolvidas.

Podia-se dizer, sem medo de errar, que a Escola Coronel Paulino Carlos era a extensão do lar do diretor apaixonado pelo ofício.

Ainda hoje é impossível não rememorar a atuação do diretor que dá nome ao refeitório da escola, mais um item dos tantos que adicionara à estrutura do estabelecimento, então ao lado da vice-diretora Esmeralda.

Tive a sorte de ter sido seu aluno no "Paulinão" em 1976, quando ele dava aulas de Educação Moral e Cívica, e seu amigo quando meus filhos estudaram naquela escola, sob sua direção. Pude ter contato com as histórias que Walter contava, sobre sua cidade natal, São Carlos (procedia de família tradicional do bairro do Tijuco Preto), e sua caminhada no magistério. Fora também professor de minha esposa Rosana, na Escola Estadual José Juliano Neto e tinha a estima de um punhado de contemporâneos meus, para quem o nome Walter Blanco era sinônimo do professor boa-praça, dono de uma admirável paciência com os alunos. As duas aulas seguidas nas tardes de sextas-feiras eram reveladoras dessa virtude.

Walter era casado com Neusa Maria Caparrós Blanco e pai de Walter, Tiago e Alexandre. Formou-se em Pedagogia na Unimep em Piracicaba e em Estudos Sociais e Educação Moral e Cívica na Unaerp em Ribeirão Preto. Possuía uma coleção de cursos, entre eles os de Administrador Escolar e de formação continuada de gestores de educação.

A carreira foi iniciada em 1958 na cidade de Osvaldo Cruz onde deu aulas no curso primário da Escola de Sagres. Sete anos mais tarde, voltou a São Carlos para lecionar na Escola Estadual Esterina Placco. Em 1966 trabalhou na Delegacia de Ensino Básico e ao longo da carreira como professor, lecionou Educação Moral e Cívica e Estudos Sociais nas escolas estaduais Paulino Carlos, Eugênio Franco, José Juliano Neto e Jesuíno de Arruda. No Senac dava aulas de Psicologia das Relações Humanas no Trabalho.

Um dos fundadores da Escola Estadual Andrelino Vieira, assumiu a direção provisória da instituição por curto período e em 1980, aprovado no concurso público para diretor, começou a trabalhar na Escola Plinio Caiado de Castro, em São Miguel Paulista, transferindo-se depois para a Escola Estadual XV de Outubro de Campo Limpo Paulista, onde permaneceu até o fim do ano de 1981, quando foi transferido para São Carlos. Desembarcava na direção da EEPG Cel. Paulino Carlos para marcar época, ali permanecendo por 21 anos, até o seu falecimento.

Durante a carreira, Walter Blanco passou uma temporada na Bahia, em tarefa de alfabetização. Na ocasião, levou conhecimento a futuros professores que a partir dali ensinariam muitas pessoas do interior baiano a ler a escrever. Walter emocionava-se ao lembrar detalhes daquela verdadeira expedição.

A missão de lecionar incorporou-se a seu modo de vida de modo que a escola se tornou o seu habitat natural.  As tarefas na diretoria eram combustíveis do seu entusiasmo e certeza de que ele foi feliz.  O “Wartão” parecia onipresente em tudo o que dizia respeito ao cotidiano da escola. Companheiro dos alunos e ao mesmo tempo uma figura paternal com sua voz firme e risada característica, a cada dia comprovava a máxima de que respeito não se impõe, se conquista.

O outro nome disso é carisma. Walter o possuía. Estava escrito no rosto da menina que vi chorando sentada na mureta em torno da escola no final da manhã em que Walter faleceu. Quem sonha com a reabilitação do ensino público também se sentaria desolado ao lado da menina.

Lembro-me de quando, em meados dos anos 1980, o diretor mobilizou pais e imprensa para, num fuzuê danado, cerrar fileiras para manter em pé o prédio da escola, ameaçado de demolição durante a reforma da Praça Coronel Salles. Walter tinha orgulho de conduzir a escola centenária, onde realizaram o curso primário são-carlenses de estirpe como Antonio Massei, Vicente Botta e Ronald Golias.

O diretor tinha alegria de conviver com os professores, com as crianças, com os funcionários, as merendeiras. Num certo período me informava frequentemente sobre as melhorias que fazia no prédio. Todas elas, até mesmo a compra do repelente para as pombas, cuja superpopulação tornou-se incômoda para a escola. E como Walter era pródigo em novidades na direção escolar: cobertura nova, sala da merenda, novos sanitários, cesta de basquete... “Usando bem o dinheiro, dá pra fazer muita coisa”, disse -me certa vez quando eu comentei que a ajuda dada à Associação de Pais e Mestres era bem aplicada ali.

Fiquei contente ao ver que ele guardava um a um os artigos que publicamos na “jornada cívica” em favor da escola. E tinha muitos outros recortes de jornais arquivados, ilustrando momentos importantes da escola, como a visita de escritores, as atividades pedagógicas e o velho orgulho da tradição do prédio supervisionado pelo autor de “Os Sertões”.

“Walter, quando você morrer, merece que coloquem um busto seu na porta da escola”, eu brincava. Ele sorria, fazia piadas com a variação da palavra busto e falava de mais planos. Os olhos brilhavam por detrás das espessas lentes de seus óculos. Nunca pendurou as chuteiras e, se o fizesse, elas seriam depositadas na diretoria do Paulino.

Os alunos à sua volta faziam festa e mostravam-lhe seus desenhos, ou simplesmente levavam um beijo. Uma rotina subitamente interrompida numa triste manhã de outono de 2002.

A notícia do falecimento do diretor consternou a comunidade escolar, que o tinha como um amigo que ao longo de sua trajetória na educação pública comprovou que com trabalho e dedicação é possível oferecer um ensino de qualidade na rede estadual.

Diga-se que o ensino público encontrou nele um fiel guardião, alguém que certamente deixou discípulos, pois aquilo que para muitos é tido como um sobre-humano ato de heroísmo - cuidar do dia-a-dia de uma escola com 750 crianças -, para o mestre era uma alegria. Deixava transparecer isso. Seu legado de integridade se juntou ao exemplo de sua conduta inspiradora para os que vieram depois.

Em memória do diretor que não deixou apenas papéis ou fotografias, mas a semente de um jeito peculiar de gerir uma escola, o município rendeu-lhe homenagem ao denominar de “Travessa Professor Walter Blanco” a via localizada entre as ruas Sete de Setembro e Major José Inácio, ao lado do prédio escolar. Também dedicou seu nome à CEMEI localizada na Rua Francisco Gentil de Guzzi, no Jardim Santa Felícia, inaugurada no dia 20 de dezembro de 2003.

 

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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