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sexta, 14 de dezembro de 2018
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MEMÓRIA SÃO-CARLENSE: Paulistinha, campeão mundial na Noruega em 1978

15 Dez 2017 - 03h12Por (*) Cirilo Braga
Foto: Arquivo Pessoal - Foto: Arquivo Pessoal -

Uma jornada inesquecível. Assim pode ser definido o feito do Clube Atlético Paulistinha ao conquistar de forma invicta o título de "Campeão Mundial de Futebol Infantil" na Noruega em 1978.

No próximo ano completam-se os 40 anos da primeira excursão de um clube esportivo de São Carlos nos campos europeus. Uma "expedição" que abriu caminho para novas conquistas e só foi possível graças à ousadia dos mentores do Paulistinha, os professores Marivaldo Carlos Degan e Ary Pinto das Neves, dos pais dos garotos que compuseram a equipe e de todos que acreditaram não ser impossível uma "aventura" ambiciosa para aqueles tempos.

Se hoje existem jogadores brasileiros espalhados pela Europa, naquele ano de 1978 era escassa a comunicação entre países e as referências eram ainda mais raras sobre o futebol amador. Foi nesse panorama que, ao se despedir de seus familiares no aeroporto de Viracopos, o Paulistinha embarcava rumo ao desconhecido. Mais precisamente seguia para uma jornada de aprendizado e intercâmbio esportivo e cultural que, sem dúvida, valeu muito a pena. Disso ninguém teve dúvida, quando o time regressou coberto de glórias três semanas depois.

BOM DE BOLA, BOM NA ESCOLA

Na época o Paulistinha contava com apenas 20 anos de existência. O clube foi fundado em 3 de agosto de 1958, um ano virtuoso para o Brasil, campeão mundial de futebol. Inicialmente, mantinha equipes de futebol de salão e mais tarde passou para o futebol de campo, utilizando o gramado do antigo Palmeirinha de Vila Nery.  Seu lema sempre foi "Bom na Escola, Bom de Bola", com o qual levava para o esporte o espírito do educador Marivaldo Degan que se difundiu para várias gerações de jovens são-carlenses.

Com sede no Recanto Tio Patinhas, dotado de campos, quadras, piscina, refeitório, alojamento e escola, o clube sedimentou uma estrutura que lhe permitiu despontar no cenário do futebol infantil.

Mas como um time de garotos de São Carlos conseguiria ir tão longe?

Tudo começou quando promotores da Copa Estudantil Internacional, um grande torneio de futebol infantil realizado anualmente em Oslo, na Noruega, pela terceira vez convidaram o Brasil para participar da competição. Assim que o Governo do Estado de São Paulo tomou conhecimento, o professor são-carlense  Pedro Prado Filho, que trabalhava na secretaria estadual de Educação manifestou o interesse em transmitir o convite ao Clube Atlético Paulistinha.

ÚNICO SUL-AMERICANO

A vaga para a "Norway Cup - Worlds largest youth soccer tournament" estava reservada, bastando o "sim" dos são-carlenses que veio em poucos dias. "A proposta do Professor Prado foi recebida com muito entusiasmo pelo professor Marivaldo Carlos Degan, presidente do Paulistinha, que acreditando no valor de sua equipe infantil aceitou o convite. E assim o Paulistinha, que já havia levantado o campeonato Adidas realizado em São Paulo, se preparou para participar da competição internacional", escreveu o cronista social Aduar Dibo em "O Diário".

Óbvio que não foi fácil angariar os recursos para pagar as passagens aéreas (as despesas de hospedagem e alimentação ficaram por conta dos promotores do campeonato). Mas se tratava de uma oportunidade de ouro e a honra de representar o Brasil num torneio mundial de futebol não poderia ser desperdiçada.

Honra duplicada: para completar, o Brasil seria o único país da América Latina a participar da competição que reuniu times de quase todos os países da Europa Ocidental e um norte-americano numa disputa de futebol em três categorias de idade.

O TIME E A EXCURSÃO

No dia 14 de julho de 1978 a delegação formada por 20 pessoas, 17 atletas e três responsáveis (Degan, Ary e Dr Antonio Mario Silva), deixou o Brasil rumo a Casablanca, em Marrocos, início de sua escalada esportiva. A "Norway Cup" se estendeu de 30 de julho até o dia 6 de agosto. Dr. Ivo Bento Garcia, da Secretaria de Esportes e Turismo do Estado e o professor Pedro Prado Filho acompanharam a delegação, sendo este último o coordenador da excursão.

De Marrocos os são-carlenses seguiram para a Suíça e Liechtenstein, com jogos preparatórios em Vaduz e Schaan, dali para a Alemanha e Dinamarca e finalmente para a Noruega.

Os atletas inscritos foram Paulo Roberto Bueno (Chinês), Valmir Gurian (Mi), Odisnei Caiado, Mario Alberto Marques, Carlos Wagner Bragatto, Santiago Justino, Anderson Celso Digiovani, Lourival José Roberto (Tiquinho), Mauricio Antonio Silva, Marcel Andreotti Musetti, Celso Luiz do Prado (Celsinho), Fernando Camargo Barbosa (Fernandinho), Claudio Tersigni, Antonio Donizetti Hercoli (Nicola), Marcio Vicente Roza de Moraes (Marcinho), Sergio Luis Vendrasco (Mineiro), Sérgio Segundino dos Santos (Serginho Dourado) e Carlos Alberto Pedrino.

FUTEBOL-ARTE

Aclimatados ao Velho Continente, em função dos jogos-treino, quando a bola rolou na Copa da Noruega os meninos do Paulistinha colocaram a bola no chão, foram para cima dos grandalhões adversários dispostos a fazer prevalecer toda a técnica do futebol brasileiro. No Mundial da Argentina, disputado naquele ano, a seleção principal de nosso país, no entanto, abdicava do futebol-arte para incorporar o estilo europeu introduzido pelo técnico Cláudio Coutinho. O resultado a gente conhece.

O "futebol arte" revivia nos gramados de Oslo. O Paulistinha pôs a bola no chão e foi batendo um a um todos os adversários, como o campeão da Escócia por 1 a 0, o campeão da Dinamarca por 3 a 0, o campeão da Suécia por 1 a 0, o vice-campeão da Dinamarca por 5 a 0 e o campeão da Noruega por 3 a 1. Classificado para a grande final, num jogo duríssimo o Paulistinha encarou o Diamond, dos Estados Unidos, vencendo por 1 a 0.

A partida foi documentada pela NRK, TV pública da Noruega, que durante o campeonato entrevistou os representantes do Brasil enviando um repórter que falava português e arrancou boas frases dos meninos, que elogiaram a receptividade, informaram que seus pais patrocinaram a viagem, falaram que a referência do país até então era o bacalhau e apontaram Pelé como seu jogador favorito.

Durante a decisão do torneio, um batuque organizado pela delegação animou a torcida.

Assim que o árbitro apitou o fim do jogo, parecia inacreditável, mas aqueles garotos de São Carlos com idades de 14 e 15 anos que viajaram de tão longe, acabavam de conquistar o mundial de futebol infantil de forma invicta. De quebra, o atacante Serginho Dourado foi eleito o melhor jogador da competição, ganhando a "Chuteira de Ouro". Serginho se tornaria profissional anos depois, indo jogar no Santos FC.

A Copa da Noruega era uma referência para o futebol infanto-juvenil, reunindo desde a sua fase inicial cerca de 280 equipes de todo o mundo. Daí o alcance da conquista e a legitimidade de se dizer que aquele foi de fato um título mundial. Havia também uma versão feminina do torneio, que projetou as garotas norueguesas (o país vendeu na modalidade uma copa do mundo, os jogos olímpicos de Sidney e duas eurocopas).

A conquista do Paulistinha em 1978 se tornou um passaporte para que a agremiação participasse de várias outras competições internacionais. Países de equipes derrotadas pelos garotos de São Carlos na Noruega convidaram o clube para jogar em seus gramados.

Assim, o histórico título da "Norway Cup" abriu caminho para a conquista de outros troféus importantes como a Copa Geovani Calciatori, na Itália, Danna Cup na Dinamarca, Soccer USA Cup Superamerica nos Estados Unidos, "Danna Cup" na Dinamarca, "Dalecarlia Cup" (em sete edições) "Piteä Summergames" e "Storsjöcupen" na Suécia.

A CHEGADA DOS CAMPEÕES

O que se passou logo após o apito final da decisão contra o Diamond foi algo que certamente os jogadores do Paulistinha guardam para sempre na memória.

"Palavras jamais descreverão a apoteótica chegada da delegação do CAP ontem à nossa cidade em seu regresso da Europa onde conquistou a Taça da Noruega, numa competição que lhe valeu o título de campeão mundial de futebol juvenil" registrou o jornal "O Diário de São Carlos" ao descrever o acontecimento que mobilizou a cidade, dias depois.

No dia 11 de agosto, uma sexta-feira, a TV Globo registrou a chegada e a recepção dos jogadores e de toda a delegação defronte à Prefeitura (então instalada no Palacete Conde do Pinhal), foi acompanhada pela equipe da Rádio Progresso, sob o comando de Antonio Walter Frujuelle e Vicente Camargo. A emissora fazia a cobertura, desde a entrada da delegação na cidade, na Avenida Getúlio Vargas para o desfile no caminhão do Corpo de Bombeiros, recebendo a saudação das pessoas que saíam à rua para aplaudir os garotos campeões. Não faltaram os acordes da Banda 7 de Setembro e os batedores da Polícia Militar abrindo passagem para o cortejo recebido com queima de fogos. O desfile passou pela Praça Itália, Avenida Doutor Teixeira de Barros, Viaduto 4 Novembro, rua Santa Cruz, Avenida São Carlos, ruas 13 de maio, Dona Alexandrina e Conde do Pinhal, chegando à Prefeitura às 13 horas.

Na Prefeitura, os garotos foram saudados pelo prefeito Antonio Massei e pelo presidente da Câmara, Jamir Schiavone, receberam medalhas conferidas pelo município e uma placa de prata dedicada ao clube com mensagem alusiva à conquista.

SEM MÁSCARAS

Um dia antes, no plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo foi aprovada moção de congratulação proposta pelo deputado Vicente Botta, que mencionava as dificuldades impostas à delegação para que enfrentasse a despesa com a participação na Copa. "Não fosse o desmedido esforço de sua diretoria e o entusiasmo dos jovens atletas dando a convicção do seu brilho no campo desportivo, não fosse a resignação e a confiança dos pais na conduta de seus filhos e a delegação são-carlense não chegaria a embarcar", observava.

O presidente da Assembleia, deputado Natal Gale, ao comunicar sobre a moção de congratulação convidou os campeões para comparecer ao plenário "para receber dos representantes do povo paulista os aplausos pela demonstração de superioridade ainda do futebol brasileiro quando ele é praticado com amor, denodo sem carismas ou máscaras, preso apenas ao desejo de servir a esta grande pátria".

Nunca o futebol de São Carlos havia alcançado uma conquista daquele tamanho.

Veja pela internet o vídeo-documentário da NRKTV sobre o torneio de 1978, histórico para os sãocarenses neste link:   https://tv.nrk.no/serie/sport-n/FBUA04001278/18-08-1978.  

Imagens: matérias de "O Diário" e "A Tribuna" de São Carlos e arquivo CAP

? Esta seção tem enfoque na memória coletiva de São Carlos e disponibiliza espaço para relatos e fotos de fatos e locais da cidade em outros tempos. O material pode ser enviado para: memoriasaocarlense@gmail.com.

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