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segunda, 19 de novembro de 2018
Memória São-carlense

Luiz Ubirajara Rosa, uma personalidade singular

14 Set 2018 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Luiz Ubirajara Rosa, uma personalidade singular - Crédito: Arquivos APCD e São Carlos Clube Crédito: Arquivos APCD e São Carlos Clube

Neste dia 18 de setembro completam-se 70 anos da inauguração do prédio do São Carlos Clube na Avenida São Carlos, ocorrida num baile de gala que mobilizou a cidade em 1948. O evento e a celebração histórica me trazem à memória o entusiasmo de uma personalidade marcante que amou esse clube desde o primeiro instante, o saudoso Luiz Ubirajara Gonçalves Rosa, falecido em 2003. O moço que estava lá naquele exato momento e figura nas fotos compenetrado e elegantemente trajado, segurando o pergaminho diante da primeira rainha do clube, Lea Rocha, coroada na ocasião.

A minha geração, nascida bem depois, nos anos 1960, teve o privilégio de conviver tanto com aqueles que viveram a época dos bondes e movimentaram a pacata e elegante São Carlos dos anos 40, quanto com quem não conheceu o mundo sem a internet e nem de longe imagina como era o glamour de outras eras.

Conheci o Dr. Luiz Ubirajara Gonçalves Rosa quando ele exercia a diretoria de Relações Públicas do São Carlos Clube, que preparou uma revista comemorativa em 1995. Fiquei empolgado com o ânimo de menino daquele senhor de riso farto e muitas histórias, que pesquisava atas e escrevia de próprio punho relatos que documentavam a trajetória do clube.

Já tinha história o Bira que fez nome na Odontologia. No ano de 1963 quando eu nasci ele já participava de um congresso internacional que ocorreu em São Carlos, promovido pela regional da Associação Paulista dos Cirurgiões Dentistas.  Bira presidiu essa entidade de classe, foi patrono de jornada odontológica, tinha adoração por esse ofício, mas não foi o dentista que encontrei e sim um camarada que amava não a história e as coisas do clube, mas também a história e tudo o que dizia respeito a São Carlos, cidade que adotou como sua terra. Alguém que gostava de me revelar descobertas que fazia nas atas do clube e os achados históricos que se ligavam a fatos mais recentes.

Eu o chamava de “você” e nem parecia que fosse da “velha guarda”. Vinha de Dois Córregos e vivera na São Carlos romântica dos anos dourados, dos bailes de gala ao som de orquestras no Clube. A São Carlos do footing na praça Coronel Salles, do snooker no Café do Centro, das sessões de cinema no Cine São Carlos, das aulas de Ítalo Savelli, João Batista de Aguiar, Vitório Rebucci e Elydia Benetti, no científico do Álvaro Guião, dos mergulhos na piscina municipal. Enfim, uma São Carlos feliz e cheia de futuro. A cidade sempre teve essa marca bem brasileira de ser do futuro.  Assim como o Bira, que apreciava a história não por um exercício de nostalgia, mas para mostrar que tudo tem um ponto de partida.

Na segunda metade dos anos 1940 ele fazia parte de um grupo musical chamado “Os Tabajaras”, integrado por Cid Carvalho, Geraldo de Oliveira, Ari de Carvalho, Rui Carvalho e Armando Porciúncula, que participavam do programa Rataplan, da Rádio São Carlos. Quando se fala na Rádio São Carlos daquele período, está se falando de uma emissora que contava com um dos maiores auditórios do Brasil.

“Os Tabajaras” tocaram no show do primeiro aniversário do São Carlos Clube, realizado no Cine São José, com presenças de Ivon Curi, Blackout, Dorival Caymmi, Trio Madrigal e outros. Um ano antes, os músicos locais acompanharam Nelson Gonçalves durante sua apresentação na cidade.

Bira também perfilou no grupo de personalidades de São Carlos que concluiu o curso científico na Escola Dr.Álvaro Guião em 1949. A “turma de jovens idealistas” após a formatura se encontrou anualmente durante décadas. Com Ubyrajara, naquela safra, estiveram Aduar Dibo, Vicente Ciarrochi, Vilberto Cattani, Romualdo Pozzi, Boris Dinucci, Ubirajara Raymundo, Carlos Cavalli, Heraldo Ramos Leomil, João José de Cunto, Hernani Guimarães do Amaral, Antonio Scaff e Adauto Marcondes Freire.

No período de 1965 a 1968, quando a equipe de futebol do São Carlos Clube se destacou na 2ª.Divisão do Paulista (José Fernando Porto presidia o clube e Mariano Marigo era diretor de futebol), lá estava o Bira, perfilando entre os aficionados que impulsionaram o futebol, fazendo doações e apoiando diretamente a equipe. Como Bira, assim fizeram Coriolano Meireles, José Rodrigues Martes, Wilson Quatrochi, Irineu Belasalma, Aristeu Favoretto, Alcices Galucci, Elvio Escrivão, Juvenal da Silva e Antonio Carlos Zuin.

A imagem do sujeito de grande presença de espírito, a verve humorística de um divertido piadista marcou a lembrança de seus contemporâneos de escola, de profissão, de clube ou simplesmente de prosa. “Bassual da minha terra” era o bordão com que saudava o pessoal com acento árabe. Imitava alemães, caboclos e turcos para deleite dos mais chegados.“Quando o Bira chegava, era a alegria que chegava”, testemunhava seu colega Aduar Dibo.

Eu vi isso quando concluímos em 1995 a revista do Clube. Com fôlego de menino, mergulhou em dezenas de atas, reviu mais de 2 mil fotos, garimpou artigos, colheu a laço muitos depoimentos, escreveu muita coisa de próprio punho.“Felizmente a mão de Deus esteve sempre conosco a guiar nosso trabalho” resumiu, ao fim da tarefa, deixando ver o seu lado místico.

Bira era um homem de fé. A sua pregação, porém, era feita com fatos. O estudioso do Santo Sudário dissecou as sensações vividas por Cristo da via crucis ao Calvário e um dia me disse: “Se as pessoas soubessem o quanto Jesus sofreu, ninguém teria coragem de dizer que sofre”. De tão fascinado com o que descobria, levava esse conhecimento às pessoas em palestras. Viajava para muitas cidades mostrando detalhes, antecipava em muitos anos o roteiro do filme de Mel Gibson.

Era também fascinado pela profissão que abraçou e não raro discorria sobre ela com a mesma naturalidade com que contava “causos” do cotidiano. Encantava-se com a perfeição da anatomia humana, o formato arredondado dos ossos, a capacidade de regeneração do organismo. Por essas e outras tinha vocação para a odontologia.

Bira seria, com todos os títulos, um personagem digno da seção “Meu Tipo Inesquecível”, que a revista Seleções do Reader`s Digest publicava em tempos idos. O filho de ferroviário, o crooner dos bailes de sua juventude, o profissional respeitado que se fez, o diretor do Clube, o religioso, todos se encontravam na figura que soube assimilar a didática secreta da felicidade.

Ao rever outro dia, numa folha de almaço amarelada, algumas anotações suas, resgatei o sortilégio de por alguns momentos ter sido um “colega” do Bira. E aprendido tanto com ele, que da última vez que esteve em casa fez uma recomendação para que colocasse fita antiderrapante nos degraus de uma escada caracol.

O texto que reli identificava as primeiras associações formadas na cidade. Os primórdios das lojas maçônicas, o surgimento do Club Concórdia Familiar numa cidade de casas de taipa e ruas denominadas São Bento, São Carlos, da Mata e Babilônia, e depois do Tennis Club, que mais tarde se fundiu ao Sport Club Paulista, formando o São Carlos Clube.

O Concórdia, apesar do nome, teve oposição de um clube chamado “Democracia”. Houve o Club Litterário e Recretativo, a Sociedade Recreativa Flor da juventude e a Sociedade Democrática Familiar de São Carlos.As colônias estrangeiras criaram a Real Sociedad Española Beneficente e Instructiva, de Filemon Perez, a Societá Meridionali Uniti Vittorio Emmanuele III, dos italianos do sul, e “Societa Dante Alighieri, dos italianos do centro-norte. No futebol, que aqui desembarcou em 1904, o primeiro clube foi o Sport Club São-carlense, de Virgilio Rabello. Sim, já existiu um São Carlos Foot Ball Club. Depois vieram o São Carlos Athletico Juvenil, Internacional Foot Bal club, Club Garibaldino, Ideal Foot-ball club e o Sport Club Paulista, o primeiro a ter estádio próprio.

“O primeiro estádio municipal inaugurou-se em 26 de julho de 1931 e recebeu a denominação de Estádio Ruy Barbosa e é hoje sede da Fundação Educacional São Carlos”, registrou o amigo que de tanto gostar de São Carlos tornou-se um são-carlense de alma e coração. Era o que eu chamo de “São-carlista”.

A caligrafia inconfundível na folha de almaço revive o entusiasmo e a lembrança do Ubirajara. Disse o poeta Vinicius de Moraes ao recordar um amigo que se foi: “Hoje eu digo o teu nome e digo-o sentindo-me melhor por ter participado do teu tempo humano”. Guimarães Rosa, no discurso de posse na ABL, sentenciou: “A gente morre é para provar que viveu".

Pois este outro Rosa decididamente viveu e provou. E por sorte minha, nas veredas do tempo, nossas distantes gerações num certo trecho puderam trilhar o mesmo caminho.

 

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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