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domingo, 24 de março de 2019
Memória São-carlense

Dr. Moruzzi, educador, advogado e político à frente de seu tempo

04 Jan 2019 - 06h50Por (*) Cirilo Braga
Dr. Moruzzi, educador, advogado e político à frente de seu tempo - Crédito: Acervo da Câmara Municipal de São Carlos Crédito: Acervo da Câmara Municipal de São Carlos

Minha geração, nascida nos anos 1960, teve a sorte de alcançar um cenário no qual ainda estavam em ação homens e mulheres que de tão simbólicos de sua época – a primeira metade do século passado -, pareciam saídos de um livro de história.

Tivemos, por assim dizer, a chance de testemunhar a vitalidade daquelas pessoas, e não por acaso muitas delas se tornariam nomes de ruas e prédios públicos. O tempo jamais apaga o nome de quem em vida olhou para além de si.

Antonio Stella Moruzzi foi uma dessas figuras ilustres. Ou, abreviando, “Doutor Moruzzi”, o advogado, professor e vereador de São Carlos, que conheci no início dos anos 1980. Ali, então já sexagenário, ele me empolgava pela paixão demonstrada por tudo o que se relacionava à cidade.

O futuro era um tema que absolutamente o fascinava. Dá pra imaginar o que significa para um jovem estar diante e ter a atenção de um "avô" disposto a olhar a vida na perspectiva do que virá.

Eu era repórter de jornal e depois assessor de imprensa e gostava de aprender com gente como Moruzzi.  Bastava uma rápida conversa com aquele parlamentar experiente ou uma audição de suas falas na tribuna da Câmara para ter amostras da sabedoria do professor e homem das lides jurídicas. Pessoas mais vividas costumam ter um modo particular de conviver com o tempo. Para elas, o tempo não se compara a um mar revolto, mas ao remanso de um rio.

Hoje Doutor Moruzzi dá nome a uma Escola Municipal de Ensino Básico no Jardim Tangará, a uma rua no bairro Jardim das Torres e à sala das sessões da Câmara Municipal. As três homenagens fazem justiça ao educador, advogado e político que ele foi – um homem íntegro e autêntico nessas funções. Em cada uma delas fez valer sua inteligência. Sim, ele esgrimia com ideias. Era marcante seu por buscar alguma coisa nova em uma época em que nada se resolvia com um simples clique. Era preciso muito mais e aquele apreciador de charutos sintonizado com os acontecimentos a seu redor, sabia o caminho.

Nascido no dia 1º de janeiro de 1914, filho de Caetano Moruzzi e Aurora Stella, formou-se professor na antiga Escola Normal, hoje Escola Estadual Dr. Álvaro Guião e advogado pela Faculdade de Direito de Niterói (RJ) em 1949. A partir de então teve destacada atuação em São Carlos nos campos da educação e advocacia. Casou-se com a professora Zoé Moruzzi, seu “braço direito”, e pai de cinco filhos.

Doutor Moruzzi notabilizou-se como um grande diretor do Instituto de Educação Dr. Álvaro Guião. Ali seu nome está gravado como protagonista de um período fecundo na história da tradicional escola.  O homem à frente de seu tempo haveria de ser um representante do povo e essa tarefa fazia parte do destino do vereador que ele foi durante 28 anos (de 1960 a 1988) e presidente da Câmara nos anos de 1973 e 1974.

Sobressaiu-se como um notável defensor do interesse público. Dizer assim parece algo burocrático. Não é o cronista que diz, mas o compulsar da história. Em todas as ações no Parlamento, Doutor Moruzzi fez valer o idealismo e grande amor por sua terra natal.

A sisudez sugerida pelos óculos de aros grossos se desfazia nas conversas informais. Tinha presença de espírito e admirável senso de humor aquele político da velha cepa, um trabalhador de todas as causas. Se São Carlos e seu povo estavam em questão, lá estava ele, ensinando como colocar as coisas mais importantes acima de qualquer interesse pessoal ou partidário.

Idealizou e trabalhou duro para a criação da escola de Educação Física – primeira instituição de ensino superior instalada na cidade -  e a tradicional Festa do Clima. Como vereador, sabia identificar o momento de reivindicar – e se o panorama da cidade indicava um futuro promissor no campo educacional, lá estava ele pondo mãos à obra. Também quando a cidade ganhava o título de “Capital do Clima”, a quem ocorreria a ideia de realizar festejos com o tema?

No livro “São Carlos na Esteira do Tempo”, o historiador Ary Pinto das Neves registrou o entusiasmo de Doutor Moruzzi ao comunicar-lhe na tarde de 14 de outubro de 1952 o recebimento de telegrama que confirmava o reconhecimento pelo Ministério de Educação e Cultura, da Escola Superior de Educação Física que já havia diplomado no ano anterior a sua primeira turma de professores. A escola havia sido fundada em 26 de fevereiro de 1949 - quase como prolongamento da atuação educacional da escola Dr. Álvaro Guião - pelo diretor e vice-diretor, Sebastião de Oliveira Rocha e Antonio Stella Moruzzi. (Em 1971 a Escola foi incorporada à Fundação Educacional de São Carlos criada pela Lei No. 6.890/71 para essa finalidade porque a escola havia sido vendida ao poder público municipal. Na sequência foi encampada pela UFSCar, assim como a Escola de Biblioteconomia e Documentação de São Carlos a partir de 1994).

Doutor Moruzzi também deu grande apoio à criação e consolidação da escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e teve participação notória no Lions Clube, do qual foi fundador e presidente no período de 1969-1970.

Em sua última legislatura na Câmara Municipal, o educador realizou uma histórica homenagem à escritora e poetisa Cora Coralina (1889-1985), que esteve em São Carlos no dia 24 de agosto de 1984. Na ocasião, uma sessão solene proposta por Moruzzi recebeu a poetisa na Escola Dr. Álvaro Guião. Aos 95 anos, então eleita “Intelectual do Ano”, Cora Coralina comoveu-se e deu o seu recado; ela proclamava que o trabalho era “uma coisa boa da vida".

Seu anfitrião sabia bem disso, e era estimulante vê-lo trabalhar como um jovem, marcando reuniões, buscando soluções para problemas intrincados e outros quem pareciam triviais, como a alta do preço do pãozinho, à qual o vereador interveio reunindo os panificadores. Lembro-me de quando, no apagar das luzes de sua caminhada na vida pública, Doutor Moruzzi falava que a cidade tinha potencial para investir no turismo, idealizando uma pequena linha de trem ou bonde para a região do parque ecológico. Seria necessário mais tempo para que pudesse fazer a ideia prosperar. Hoje é possível concluir que não somente mais tempo, como também seria necessário alguém incorporar o idealismo do Doutor Antonio Stella Moruzzi.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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