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quarta, 15 de agosto de 2018
Memória São-carlense

Cardoso Natal, o narrador de memoráveis jornadas esportivas

12 Jun 2018 - 17h51Por (*) Cirilo Braga
Cardoso Natal, o narrador de memoráveis jornadas esportivas - Crédito: Miltinho Marchetti Crédito: Miltinho Marchetti

Nas memoráveis jornadas esportivas do final dos anos 1970 e início dos 80, das cabines de imprensa do Estádio do Luisão ecoava um grito de gol que durava mais tempo, fazendo parecer que um tento do Grêmio Esportivo São-carlense valia dois, como no basquete. Era o grito de gol do Cardoso Natal (1939-2016), que só terminava quando a bola já estava no círculo central para recomeçar a peleja.

Bons tempos aqueles, de reconhecer o talento do moço do microfone daquelas tardes que ficaram para sempre guardadas na memória de gerações de torcedores.

Antonio Cardoso Natal Filho era o nome dele. O narrador esportivo que surgiu para a profissão em 1976, quando – já então picado pela mosca que o levou a trabalhar em rádio – o então comentarista esportivo Cardoso Natal foi escalado para substituir o titular Antonio Walter na narração de uma partida do Grêmio na cidade de Bauru, tendo como comentaristas o José Luis Finocchio e o saudoso Orivaldo Bibi Marotti. Nascia ali o locutor que conquistou sua posição, o narrador que transmitiu futebol ao longo de quase quarenta anos. Quatro décadas de uma bela história.

Quem o conheceu testemunhou seu jeito de ser: simples, atencioso e sincero. Quem não o conheceu pessoalmente admirou o estilo do locutor, um vencedor na profissão que escolheu. Ou, melhor dizendo, alguém que foi escolhido por ela.

Cardoso Natal nasceu no dia 21 de julho de 1939 na cidade de Analândia e chegou a São Carlos aos 12 anos, indo morar na Vila Bela Vista. Logo arrumou emprego para ajudar seus pais e trabalhou inclusive no antigo Tecidão da Rua Aquidaban. Gostava de jogar futebol e ainda na adolescência começou a fazer parte de equipes da cidade.

Jogou na Ponte Preta da Bela Vista, Guanabara, Estrela de Bela Vista, Fluminense da Vila Prado, América e Portuguesa da Vila Nery. Depois de machucar o joelho esquerdo e não poder mais jogar, resolveu ser técnico de futebol.

Dirigiu o Ipiranguinha de Vila Prado, Marianos, Cerealista e dirigiu também várias seleções da cidade, inclusive uma que inaugurou o campo do Sesi na rua Coronel Julio Augusto de Oliveira Salles. Na ocasião era convidado para dar entrevistas como técnico e pelo destaque alcançado, foi convidado para trabalhar na Rádio Progresso como comentarista esportivo.

O destino o levou a ser o narrador da Equipe “Titulares do Esporte”, da Rádio Progresso, a descobrir o seu dom, se destacar nas transmissões e também na apresentação do prestigioso programa “Antena Esportiva”.

O programa “Antena Esportiva” era muito respeitado inclusive pelos grandes profissionais da Crônica esportiva Paulista. As premiações anuais do programa traziam para a cidade grandes nomes do rádio paulista e brasileiro, confirmando a alta qualidade e o profissionalismo do rádio esportivo são-carlense.

Cardoso aos poucos construiu seu estilo de locução. E ao longo do tempo incentivou jovens a seguir o caminho da crônica esportiva, acompanhando-o em grandes jornadas, como os repórteres esportivos Carlinhos Oliveira, Zaqueu Mendes e Tucura.

Durante sua vida de narrador esportivo conheceu praticamente todo o interior paulista e ainda teve a chance de narrar a partida Brasil X Escócia no Estádio Serra Dourada, em Goiânia, na estreia do atacante Giovani, que jogou no Grêmio.

Transmitiu Brasil x Chile em Ribeirão Preto, foi ao Maracanã fazer Flamengo x Corinthians e participou de transmissões no sul do país.

Em nossa região narrou jogos em Ribeirão Bonito, Porto Ferreira e Descalvado, onde transmitiu 20 jogos pela Rádio 8 de Setembro daquela cidade.

Também narrou partidas da seleção brasileira de vôlei masculino e feminino, futsal, basquetebol e fez o 1º Motocross da Cidade Aracy no início dos anos 1980.

Não é exagero dizer que o Cardoso Natal dedicou sua vida ao rádio: para se ter uma ideia, ele narrou mais de 3 mil jogos e mais de 6 mil gols.

Em 1º de setembro de 2014, o município de São Carlos rendeu a ele um importante tributo de gratidão, ao conceder-lhe o título de Cidadão Honorário de São Carlos, reconhecido pelo Decreto Legislativo de Número 772. Homenagem merecida a alguém que na sua trajetória fez brilhar o seu amor pelo esporte, notadamente o futebol.

O locutor ampliava o seu trabalho na Rádio Progresso e depois na Clube a outros segmentos da programação. Embalou também o romantismo dos ouvintes em programas como os de músicas do passado, que apresentou até recentemente. Homem do rádio por excelência, não é exagero dizer que até alguns anos atrás, Cardoso morava mais na emissora que em sua própria casa, conservando o mesmo ânimo de muitos anos atrás quando se inspirou no seu locutor favorito, Pedro Luis.

A condição de cidadão de São Carlos ele conquistara muito antes daquela tarde no estádio Alfredo de Castilho em Bauru. O homem de voz grave, sempre muito atencioso nas conversas com todos, marido de Olga de Souza Cardoso Natal , pai de Alessandro, Elisangela, Elaine e Anderson e avô de  Lucas, Leonardo, Enzo e Nicholas, deixou saudades ao falecer no começo da tarde deste dia 12 de junho.

Um profissional do rádio não somente testemunha os acontecimentos como deles participa com o espírito de quem ama, verdadeiramente, esta cidade.  Foram muitas as histórias – e os companheiros do Cardoso de muitas jornadas no rádio hão de se lembrar de grande parte delas – sempre com entusiasmo e uma disposição contagiante de permanentemente fazer tudo cada vez melhor.

O locutor esportivo, afinal, é envolvido pela atmosfera dentro e fora do estádio – não tem como separar. Leva pra dentro da cabine de locução tudo o que sente, por isso se apaixona imensamente pelo ofício.

Quando o reencontrei não faz muito tempo, numa rápida conversa eu tive a certeza de que, se o tempo voltasse, aquele menino vindo de Analândia com 12 anos para fazer sucesso e conquistar milhares de amigos em São Carlos, faria tudo igual, tudo do mesmo jeito.

O profissional dedicado, compromissado com o bom desempenho no trabalho – sempre preocupado em organizar tudo, checar todos os detalhes e garantir uma boa jornada – teve também a marca de um grande torcedor, a ponto de compor o hino do Grêmio, aquele cujo refrão dizia: "Grêmio, Grêmio, Grêmio, é o nosso grito de guerra. Você é a força mais viva que despontou nessa terra!".

A terra do time e a terra do locutor foram uma só – como soubemos - e a força mais viva é essa, da alegria que ele espalhou e que fica na esteira de sua fecunda passagem por este mundo.

 

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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