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sábado, 23 de março de 2019
Memória São-carlense

Antonio Carlos Vilela Braga, um educador que fez história

08 Mar 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
Antonio Carlos Vilela Braga, um educador que fez história - Crédito: Acervo FPMSC Crédito: Acervo FPMSC

Eu me lembro de quando em 1984 recebi do então vereador Antonio Carlos Vilela Braga uma congratulação por uma crônica intitulada “Minha Escola”, em que defendia a preservação da Escola Coronel Paulino Carlos. Se ele se surpreendera com o tom já nostálgico do texto de um jovem de 21 anos, eu me surpreenderia dali em diante com nossas conversas que passaram a ser frequentes na Câmara Municipal. O parlamentar e educador me mostrava projetos, comentava sobre discursos, artigos da imprensa, literatura brasileira e o panorama político. Longe do esgrimista dos debates na ribalta do plenário, falava de igual para igual com o menino que eu era – numa proximidade própria de quem viveu intensamente no mundo do ensino e pela vida adentro cultivou a flor da juventude.

Braga foi um professor em tempo integral. Não o tempo de uma aula, nem de um ano letivo, tampouco o tempo de uma carreira profissional - mas o tempo de uma vida. Não por acaso nasceu num 15 de outubro, dia do professor (há momentos em que destino e predestinação não usam disfarces). Também não haveria de ser um acaso que a sua partida para a grande viagem ao desconhecido se desse antes que o Verão se findasse. Porque é solar o caminho de um professor. E porque gostava dos versos de Murilo Mendes: “Eu vi o anjo na cidade clara/Nas brancas praças do país do sol./Eu vi o anjo no meio-dia intenso/Que me consola da visão do mal”.

Em nossas prosas, o “parente” como nos chamávamos um ao outro, brincando com o sobrenome que compartilhávamos sem ter parentesco, invariavelmente tomando café. Momentos em que deixava de lado todos os títulos que tinha – até mesmo o de professor – para ser apenas o “Braga”. (Conforme me revelou, era chamado de “Toninho” em família e quase nunca de Antonio; só um antigo colega de faculdade o chamava assim).

Como bom historiador, tinha a noção de que o tempo presente guarda direta relação com o passado e antecipa o que virá – o mais importante: “O futuro é nossa prioridade e é lá que vamos passar o resto de nossas vidas”, dizia. As pessoas de seu convívio hão de notar que sua mensagem foi a de que o bem viver é fruto da combinação de simplicidade com sofisticação – com um olhar sempre adiante.

Braga apreciava a melhor literatura (Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Dalton Trevisan, Jorge Luis Borges, Joseph Conrad e Italo Calvino), filmes (como Vidas Secas com direção de Nelson Pereira dos Santos; Armarcord, de Fellini), a música brasileira (Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Noel Rosa,Ari Barroso, Tom Jobim) e ao mesmo tempo cultivava as origens mineiras. Nunca esqueceu as histórias contadas pela mãe, dona Maria – “ela achava o passado importante, por isso passava horas e horas contando casos da família com raro talento”. Transmitiu muitas das histórias dela aos três filhos. “Já me preocupei muito com eles. Hoje, na verdade, espero e confio que vão se dar bem”, me disse certa vez.

Numa crônica comentou sobre os irmãos, que via pouco – “o que é uma pena” – e das irmãs que encontrava sempre e com quem se surpreendia: “As mulheres têm um talento incrível, comparável ao de um escultor”, dizia. “Elas veem o homem como uma matéria bruta a ser modificada, esculpida, modelada. Ao contrário do que se diz, ainda vivemos no matriarcado. O feminismo não existe, elas detêm o poder”.

Contava ser muito parecido com seu pai, Sebastião, que “estava sempre correndo atrás do tempo” – tema que o desafiava, como demonstrou na citação de Jorge Luis Borges na epígrafe de um texto autobiográfico que me mostrou alguns anos atrás: “O único enigma é o tempo, essa urdidura do hoje, do futuro, do sempre e do nunca”.

A história que ele deixou pode ser contada como uma crônica, um causo, um conto. Como tantos, nascidos de suas reflexões que compartilhava.

Ao falar da partida de amigos e companheiros, observava que a vida de cada pessoa traz um ensinamento. Quem sabe faz compreender que somos um elo da universal corrente – ou que estamos aqui simplesmente para lançar na terra bruta a semeadura do bem.

Em todas as suas ações, o professor fez valer o amor que nutriu por São Carlos, cidade que adotou como sua terra durante a maior parte da vida. Mineiro de Varginha, nascido no dia 15 de outubro (dia do Professor!) de 1940, filho de Sebastião Gonçalves Braga e de Maria Vilela Braga, tornou-se um “são-carlense de coração” quando se fixou e constituiu sua família ao lado da Professora Zuleika Hortenzi Vilela Braga - tendo os filhos Caio Graco, David e Luis Felipe.

Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Bauru, em Pedagogia pela Universidade Federal de São Carlos e em História pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Preto, pós-graduado na área de História Econômica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), foi uma personalidade de grande contribuição à educação, cultura e desenvolvimento de nossa cidade.

Trabalhou na Companhia Brasileira de Tratores (CBT) e no início dos anos 1970 fundou, ao lado de Oswaldo Aparecido Ienco, a então Faculdade de Administração de Empresas de São Carlos da Associação de Escolas Reunidas precursora do Centro Universitário Central Paulista (Unicep), responsável pela UNICEP, ASSER Rio Claro e ASSER Porto Ferreira.

Empreendedor no campo educacional fez valer, sobretudo, a visão do professor – condição que o acompanhou e distinguiu ao longo da vida. Tendo sido diretor do Colégio Comercial Estadual de Maringá (1966-1967), em São Carlos lecionou no Colégio Estadual Professor Militão de Lima (1968-70), Colégio Diocesano (1968-1971) – no qual foi coordenador pedagógico - e Instituto de Educação Dr.Álvaro Guião (1969-70). No ensino superior, deu aulas na Escola de Biblioteconomia e Documentação de São Carlos (1968-1970) – onde exerceu o cargo de diretor interino em 1974- lecionando também no Centro de Ensino Superior de São Carlos (onde foi diretor entre 1972 e 1979) e Universidade de São Paulo (1973-1974).

Entre os anos de1973 e 1975 foi conselheiro da Fundação Educacional de São Carlos) e advogado-chefe do Departamento Jurídico da Companhia Brasileira de Tratores (CBT). Em 1979 recebeu com muito merecimento o título de “Professor do Ano”.

Braga implantou as unidades do Anglo em São Carlos e Araraquara e desenvolveu projetos importantes para a difusão de sua história e preservação da memória urbana.

Foram de sua iniciativa produções como a série “Olhares sobre São Carlos – resgate do acervo fotográfico da cidade” e a série “Documentos”, que reeditou importantes obras como material de apoio a pesquisas de História e Geografia em São Carlos, disponibilizando-o a bibliotecas públicas e escolas da cidade. A Série Documentos inaugurou um conjunto de iniciativas no âmbito da memória histórica que o coordenou na Unicep.

Pela Ômega Produções realizou a coleção “Conheça São Carlos” - conjunto de sete vídeos, abordando os mais diversos temas do cotidiano de São Carlos - iniciando por “Mário Tolentino, Trajetória de Um Educador”, editado em 1996. Realizou o vídeo promocional da cidade intitulado “São Carlos de Portas Abertas” e também reeditou e distribuiu de forma gratuita exemplares do Almanaque de São Carlos de 1928. No ano de 2007 publicou na imprensa uma série de crônicas históricas que celebravam o sesquicentenário da cidade.

“Um professor de História deve ser, antes de tudo, um bom contador de histórias. Essa deve ser a minha contribuição”, dizia.

No âmbito político, Braga militou no PMDB, elegeu-se vereador à Câmara Municipal em 1982, exercendo mandato na Legislatura de 1983 a 1988, ano em que foi um dos fundadores do PSDB pelo qual concorreu à Prefeitura de São Carlos.

Ao falecer no dia 27 de fevereiro de 2014 em São Paulo deixou a lembrança de um intelectual de grandes serviços prestados a São Carlos, como destacou a Portaria pela qual a Câmara declarou luto oficial na ocasião de sua morte.

“O professor Braga deixou um legado de probidade, idealismo e espírito democrático. Participou da vida pública com muita dignidade, externando ideias modernas e avançadas empreendendo uma ação política transformadora”, assinalou.

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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