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sábado, 23 de março de 2019
Memória São-carlense

A lembrança de grandes mestres

15 Mar 2019 - 07h00Por (*) Cirilo Braga
A lembrança de grandes mestres - Crédito: FPMSC/Memórias do Instituto Crédito: FPMSC/Memórias do Instituto

Uma fotografia publicada no livro “Memórias do Instituto”, de autoria da professora Maria Christina Pirolla, mostra professores da escola “Dr. Álvaro Guião” no ano de 1976, trazendo a lembrança de um memorável time capitaneado pelo enérgico diretor Antonio Cotrim. Na época, com o fim do ginasial naquele estabelecimento, eu acabara de migrar para a escola “Coronel Paulino Carlos”, para retornar ao então “instituto” em 1979.

Tive oportunidade de ser aluno de muitos daqueles mestres, alguns figurando agora na denominação de ruas e escolas na cidade. Ver a imagem deles reaviva a memória dos dias passados nas salas, corredores e pátio da velha escola. Bernadete, Amadeu, Orlando, Iria, Maria Alice, Mércia, Adevaldo, Ricardo, Marivaldo...

As pessoas em geral, em qualquer época, se recordam de um professor ou professora que marcou sua caminhada escolar. Isso não é privilégio dos antigos, embora a nostalgia seja própria de quem, mudando de estágio na vida, se põe a recordar não de um lugar, nem de um tempo em especial, mas de uma felicidade.

A escola, o professor, os colegas. Quem não tem histórias para contar? Quem não viu nos olhos de um professor a determinação de um missionário? Ou quem não teve a sensação de que um ano em particular seria inesquecível?  Ou mais de um. Os anos do ginásio e do ensino médio. Quando a cabeça da gente está aberta para receber influências de todo tipo. E então o professor é herói ou vilão, conforme a dificuldade do aluno na matéria.

Alguns transformam o difícil em fácil. Péricles Soares já colocava o exercício de Matemática na lousa e dizia no estilo Jota Quest: “Pessoal, isso é fácil, isso é muito fácil”.Orlando Perez saudava com um  “Tarde, tigrada!”. Maria Alice Vaz Macedo fazia biquinho: “Tout le monde es présent?”. O professor com jeito de vigário de paróquia de cidade pequena entrou na classe no primeiro dia de aula, foi à lousa e escreveu: Disciplina-História. Professor-Ary Pinto das Neves. Virou-se ligeiro e com voz grave, ordenou: “Não riem!” Logo contou uma piada infame, para que a classe toda explodisse como num gol de final de campeonato. Um presente da figura impoluta, de caráter sem jaça.

Recuando mais um pouco no tempo, o professor Walter Blanco era contestado toda santa aula por um aluno que deixava o mestre perplexo nas aulas de sexta feira.

Péricles, Orlando, Maria Alice, Ary, Walter. Todos partiram, pois decerto em outra dimensão reivindicaram-se os seus ensinamentos.

Posso dizer que professores daqueles anos 1970 e princípio dos anos 1980, alguns deles não deixaram sucessores. Certa vez fiz esse comentário conversando com a professora Diana Cury, que lecionou ciências, matemática e psicopedagogia. Ela me dizia que quando aluna, inspirou-se no exemplo de educadores como Elydia Benetti, Carminda Nogueira, Mauro Romanelli e Irmã Maria Angelita. Nomes que em outros tempos fizeram do ensino a razão de existir. Seguiram o conselho de alguém que recomendava: “Não faça pão, faça pirâmides”.

Muito depois de ter estudado no “Álvaro Guião”, gostava de reencontrar o professor Amadeu, que literalmente ensinara a seus alunos o caminho das pedras no Laboratório do Álvaro Guião. Um colega insistia em chamar ágata de “a gata”. Também revia com frequência a professora Maria Teresa Vayego, que nos levou a fazer viagens pelo espaço sideral e por lugares inimagináveis como o Mount Pelé, na Ilha Martinica. Viagens que provavam o dito de Clarice Lispector: “O melhor de mim é aquilo que ainda não sei”. Imagine uma aula da dona Maria Teresa hoje com os recursos da internet...

Os grandes professores parecem se ligar por uma corrente que transpõe o tempo. O exemplo de um de certo modo fica inoculado no outro, que se torna um discípulo.  Eles podem não vestir o traje social do seu Ary, ou o guarda-pó do seu Orlando. Mas nas escolas de hoje seguem desafiando o improvável.

Pergunto a alguns jovens quem são seus melhores professores, e logo me apresentam alguns nomes de mestres de disciplinas variadas:  matemática, história, biologia, língua portuguesa. Ao entrar para a faculdade onde se formou, meu filho Thales mantinha a lembrança de José Carlos, ou simplesmente Zé, um professor do cursinho pré vestibular. “O Zé me ensinou tudo o que eu sei de matemática”, admitiu.

Não há mágica, pois, não há segredo no agir dos bons professores. Se lhes pedirem para abrir o baú, dele não sairão pombas nem surgirão coelhos. Um professor não precisa ser Harry Potter, mas pode ser “Zé”. 

Educar é melhorar o ser humano. E para você, caro leitor, quais são os antigos professores que permanecem em sua lembrança?

(*) O autor é cronista e assessor de comunicação em São Carlos  (MTb 32605) com atuação na Imprensa da cidade desde 1980. É autor do livro “Coluna do Adu – Sabe lá o que é isso?” (2016).

Esta coluna é uma peça de opinião e não necessariamente reflete a opinião do São Carlos Agora sobre o assunto.

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